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O #Fiqueemcasa e as facções

Moradores de bairros como Liberdade, Águas Claras, Engenho Velho e Valéria têm dificuldade até para pedir uma pizza graças à ação dos traficantes

[O #Fiqueemcasa e as facções]
Foto : Divulgação

Por James Martins no dia 04 de Março de 2021 ⋅ 09:10

Sim, a pandemia é uma guerra. Uma guerra que podemos talvez descrever nos seguintes termos bíblicos: “Nossa luta não contra a carne nem contra o sangue, mas contra os espíritos e potestades do mal”. Isto é, uma guerra que deveria nos unir a todos, como humanidade, entidade comum, contra o vírus que, até pelo impalpável, simboliza bem o espírito obsessor. Como não há ainda remédio nem tratamentos confiáveis (e nem vacinação pra valer), uma das armas recomendadas é o já famoso #fiqueemcasa. E é aí que a nossa situação de “entidade/classe comum” começa a desmoronar. Sem falar na diferença da condição de cada, digamos, prisão domiciliar, algumas tão insalubres que já foram tomadas por Jorge Amado para explicar o prodigioso rueirismo da população soteropolitana mais pobre, há ainda o fato de que quase a totalidade dos bairros onde o grosso dessa mesma população mora se converteu e muito, muito antes da pandemia, em verdadeiras praças de guerra. E não mais de uma guerra contra espíritos malignos, mas contra carne e sangue humanos mesmo. Uma guerra de nós contra nós. Onde quem tá ganhando, em relação ao cidadão comum, é a bandidagem — aliás como sempre.

Aí o governador e o prefeito da capital anunciam um fechamento parcial de ruas e comércios, ressalvando apenas atividades consideradas essenciais. Pode comprar pizza? Você pergunta. Só delivery, é a resposta. Mas a resposta completa deveria ser: só delivery se você morar num bairro normal, pois se for na faixa de guerra o entregador não vai. Acontece que a faixa de guerra já é tão grande na cidade que ela é que é a normalidade. São lugares de gente boa, comum, trabalhadora, infelizmente infectados pelo domínio das facções criminosas sustentadas pelo tráfico de drogas. Atendem pelos nomes de Liberdade, Valéria, Engenho Velho da Federação, Águas Claras, Nordeste de Amaralina etc. Eu mesmo nasci e me criei no Curuzu e já tive, muito antes da pandemia, em visita a uma prima, que passar pela humilhação de ter recusado um pedido de comida, pois o motoboy temia pela própria vida em lugar tão... me dói só de ter que escrever… perigoso.

Mas se fosse difícil apenas conseguir uma pizza, seria até tranquilo. Há pessoas que já se acostumaram a sair de um bairro a outro para pegar um ônibus (esse artigo nada luxuoso), pois em sua bocada tacaram fogo em outro anteontem. #Fiqueemcasa, diz o slogan. E o diz com razão. Mas se acontecer uma pane na rede elétrica e pifar a TV de plasma comprada em mil vezes na Magalu, aí é capaz de não achar eletricista com coragem o bastante para ir lá consertar. E como a Metrópole não opera com a lógica das facções (nem das ficções) de não poder citar outros veículos de imprensa, recomendo a excelente matéria publicada no jornal Correio* desta terça-feira (2), de autoria de Bruno Wendel, sobre o assunto.

A obrigatoriedade do isolamento social gerou discussões sobre liberdades individuais, direito de ir e vir e responsabilidade social. Verdade maior é que uma parcela enorme da população já está acostumada a toques de recolher, restrições arbitrárias e controle até mesmo da linguagem. Pior até que no Facebook. Até quando?

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