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Hilux e fome

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[Hilux e fome]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 04 de Março de 2021 ⋅ 12:11


Há um ano, diariamente, a imprensa vem se transformando involuntariamente em um relicário fúnebre. Números, casos, fatos, prognósticos, gráficos, imagens. Tudo parece monotemático. E fazer o quê, para a audiência exausta? Impossível ignorar a tragédia mundial e local. E impossível não cansar disso tudo. Os comparativos e superlativos são todos desmentidos nos dias seguintes, nas semanas seguintes.
 
Ontem foi o pior dia? Independentemente de em que dia essa pergunta seja feita ou lida, não se sabe. Virou questão de fé, de torcida, de promessa feita. As teses da ciência têm vencido a positividade do rebanho aglomerado e têm acertado todos os números da loteria da letalidade. Frequentemente, os amanhãs desmentem os números de hoje, para pior, superando-os.
 
E enquanto morrem milhares, sem estratégias imediatas para interromper a tragédia, aprofunda-se o conflito entre a Presidência da República e os governadores, entre parte da sociedade e os gestores públicos locais. A economia perdeu de vez quaisquer constrangimentos e foi para as ruas evocar a insanidade. Das discussões nas redes sociais e nos grupos de família, o bate-boca migrou para outras dimensões. Os governadores oficializaram em uma carta o confronto com o presidente Jair Bolsonaro, após o número de mortos bater recordes em fevereiro e o governo anunciar números falsos de supostos repasses de recursos para a saúde nos estados.
 
PAREDÃO - Grupos de empresários insatisfeitos, chamados em alguns estados de “a revolta da Hilux”, pelo apreço que têm em ir para as ruas em manifestações a bordo de seus potentes SUVs (Sport Utility Vehicle), estão por todo o país. As carreatas são para pedir a prefeitos e governadores que obriguem as pessoas a dizerem sim a um apelo mais ou menos nesses termos: me deem e me doem as suas vidas e salvem o meu negócio. Como argumento, uma falsa tese segundo a qual o país não vai morrer de COVID, mas de fome. Sem reiterar, claro, que morto não trabalha, não consome e nem fome sente.
 
Em Salvador, após as famílias com filhos em escolas privadas irem até a frente do edifício do prefeito Bruno Reis exigir a reabertura das escolas, os empresários também foram, de carro, protestar contra o lockdown. Garantem que a medida restritiva não evita o alastramento do vírus e que a economia opera com todas as lógicas dos protocolos de segurança. Como o vírus teria chegado a essa curva tão ascendente? A resposta está na ponta da língua: os paredões, as periferias e o transporte público. Deve ser por isso que os hospitais privados mais caros das metrópoles brasileiras estão com mais de 100% dos leitos COVID ocupados. Todos pacientes da periferia.
 
 

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