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A Rebecca da Netflix e as aulas online

Inspirado no plágio de um livro da brasileira Carolina Nabuco, o filme é remake do único Oscar de Hitchcock

[A Rebecca da Netflix e as aulas online]
Foto : Divulgação

Por James Martins no dia 11 de Março de 2021 ⋅ 08:50

Por favor, me permitam mudar de assunto. Não apenas em nome da minha própria saúde mental, mas também porque para tratar de vírus, Lula, Bolsonaro e coisa parecida tem gente na praça muito melhor. Agora eu quero voltar a falar é de Netflix, filmes, livros e outras amenidades. Ou melhor, da releitura que a plataforma de streaming fez do longa “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, o único (falo do original, claro) de Alfred Hitchcock a ganhar um Oscar de Melhor Filme, em 1940. Tá certo, a versão da Netflix, que por sinal nem assisti, saiu em outubro do ano passado, mas o que me fez querer comentar o assunto só agora foi a notícia de que a arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi será agraciada, em memória, com um Leão de Ouro na próxima Bienal de Veneza. Eis o que pensei: enquanto isso, por aqui, o que é que ela ganha além da desfiguração ou do abandono de suas obras? O Coaty e a reforma eterna do MAM estão aí para não deixar ninguém mentir. 

Mas, por falar em mentiras, voltemos à Netflix. O novo “Rebecca” é anunciado como "baseado no livro atemporal de Daphne du Maurier". Beleza. O que não se conta é que o livro da senhora Du Maurier é simplesmente um plágio safado de “A Sucessora”, da brasileira Carolina Nabuco, lançado em 1934. E, embora a história seja pouco conhecida atualmente, o golpe é bem manjado, especialmente no ambiente do audiovisual — funciona assim, produtores recusam uma ideia alegando ser ruim, depois montam-na como se fosse sua (isto é, deles). Foi o que aconteceu com a aristocrata Carolina. 

Filha da glória da pátria, Joaquim Nabuco, que além de importante abolicionista, jurista, diplomata, escritor, e o que mais você imaginar, era também podre de rico, ela quis ampliar o alcance de seu livro. Traduziu a obra para o inglês e enviou-a a editores nos Estados Unidos, solicitando ainda que também fossem contatados agentes na Inglaterra. Resumindo: nunca obteve respostas. O que viu foi, tempos depois, sua história assinada pela já famosa Daphne Du Maurier. Ora, direis, mas não pode ter sido só coincidência? E eu vos direi, no entanto, não. 

Mesmo antes de o filme de Hitchcock fazer sucesso nas telas, o insuspeito New York Times Book Review publicou um artigo demonstrando as incríveis semelhanças entre os livros da inglesa e da brasileira. E também aqui no país, ainda com mais minúcias, o crítico Álvaro Lins fez o mesmo no Correio da Manhã. E chamou o lance pelo nome correto: plágio! Além de tudo, quando o filme estava prestes a estrear no Brasil, os advogados da United Artists procuraram Carolina Nabuco oferecendo-lhe um “cala boca” em dinheiro. Que ela finamente recusou.

Pena que também se recusou a processar a coleguinha cara-de-pau, pois seria bom que esse circo pegasse fogo. Afinal, uma escritora inglesa plagiar uma brasileira (dadas as importâncias comparadas de ambas literaturas) é um dado da maior importância. E que esse plágio tenha gerado o único Oscar de um mestre do cinema americano, é outro. Aliás, quero aproveitar o período de aulas online para dar um palpite: por que não contar essas histórias aos alunos? Acredito que despertaria bastante interesse (inclusive pela leitura), mesmo concorrendo com a Netflix.

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