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Os Rambinhos do Exército e o rombão na imagem

Considerado "um mau militar" pela cúpula da corporação, o presidente agora parece querer se vingar das Forças Armadas

[Os Rambinhos do Exército e o rombão na imagem]
Foto : Divulgação

Por James Martins no dia 18 de Março de 2021 ⋅ 08:10

E ainda há quem minimize a importância da imprensa. Só essa semana, o Exército brasileiro economizou R$ 730 mil que estava prestes a torrar comprando brindes e material fotográfico, incluindo “kits para churrasco” (com o brasão da entidade plotado) e 80 mil reais em bonequinhos do Rambo — sim, aquele mesmo, personagem de Sylvester Stallone que ficou famoso matando vietnamitas no cinema com sua fitinha vermelha. A notícia foi divulgada pela revista “Veja” e, no mesmo dia, como eu disse, o Exército nacional economizou essa bolada! Seria significativo em quaisquer tempos, claro, mas na pandemia cada centavo vale ouro. Talvez por isso, a imprensa seja escolhida inimiga preferencial em regimes totalitários: aqui, na Itália ou em Cuba. E é certamente por essas e outras que o presidente Jair Bolsonaro atribui seus mirabolantes problemas à má vontade dela (isto é, nossa). Ou alguém já esqueceu que os 15 milhões em leite condensado eram única e exclusivamente para enfiar em nosso rabo?

Mas, ao contrário do que pode parecer, não é a imprensa o assunto deste artigo, e sim o Exército. Além dos Rambinhos, a lista de brindes desejada pela corporação incluía canetas, bonés, chaveiros etc. Na acepção aqui utilizada, a palavra “brinde” é sinônimo de lembrança. Podemos traduzir assim: o Exército brasileiro estava prestes a gastar 730 mil reais em lembrancinhas, no auge da pandemia e de uma crise financeira sem precedentes no país. E eis a dúvida que me ocorre: para lembrar de quê? De que nunca como agora foram tão desmoralizados? Pois a verdade é essa, tudo o que o presidente nacional e comandante supremo das Forças Armadas faz é enlamear a imagem delas. Ou alguém suspeitaria, por exemplo, de que o general Pazuello não sabe nadica de nada de logística até ele assumir desastrosamente o Ministério da Saúde? Ou que outros generais seriam sumariamente demitidos por um capitão da reserva e por motivo oposto, ou seja, demonstrar alguma competência: como Franklimberg de Freitas, exonerado da Funai por querer defender índios; e Décio Brasil, defenestrado por não nomear um padrinho de casamento de Flávio Bolsonaro para cargo importante na Secretaria dos Esportes.

Mas há situação pior, que o povo brasileiro não pode nem deve esquecer. A crise de oxigênio que vitimou tanta gente em Manaus foi alertada com antecedência, pela empresa White Martins, ao governo federal. O e-mail, direcionado a coronéis lotados no Ministério da Saúde, sequer foi respondido. Ou seja, em vez de defender nossas vidas, transformado em partido político pelo presidente sem partido, o Exército nacional tornou-se responsável por nossas mortes. Há 33 anos, em publicação oficial de 25 de fevereiro de 1988, assim o mesmo Exército se manifestou a respeito do capitão Bolsonaro e de um seu cúmplice: "Tornaram-se, assim, estranhos ao meio em que vivem e sujeitos tanto à rejeição de seus pares como a serem considerados indignos para a carreira das armas. Na guerra, já plena de adversidades, não se pode admitir a desonra e a deslealdade que não do lado inimigo, jamais do lado amigo". É sabido também que o general Ernesto Geisel, ex-presidente, classificou o atual chefe da nação como "um mau militar". Bom, se agora ele está se vingando, pelo menos, graças à imprensa, o Exército não confeccionou lembrancinhas da própria desgraça.

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