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Salvador, 472 anos a não perder de vista

Para este aniversário, o grande desafio à população naturalmente gregária, rueira, é ficar em casa. A capital do tambor deve se mostrar também capaz de silêncio

[Salvador, 472 anos a não perder de vista]
Foto : Valter Pontes/Secom/Pms

Por James Martins no dia 25 de Março de 2021 ⋅ 08:10

Não se sabe ao certo em que dia a primeira capital do Brasil foi fundada. Ficou o 29 de março de 1549, quando Tomé de Sousa desembarcou no Porto da Barra, com sua frota e a missão de fazer daquela bagunça uma cidade. E mais: uma cidade super organizada, inclusive do ponto de vista urbanístico, geometricamente planejada, espécie de Brasília quinhentista. Pois bem, venceu a bagunça. Ou existe cidade menos geométrica que a Salvador das ladeiras irregulares, das invasões, da Liberdade, dos Alagados? Ou menos organizada que esta capital que institucionalizou o cacete armado? E é por essas e outras que, pelas minhas contas, em vez de 472, a cidade conta mesmo é 512 anos — o marco sendo a chegada de Diogo Álvares Correia às águas do Rio Vermelho e seu posterior entrosamento com os índios. Ao ser batizado de Caramuru pelos tupinambás, o português que naufragara aqui sob bandeira francesa inaugurava a alma da cidade que, séculos depois, resignificaria o francês Pierre Verger como Fatumbi. 

E, para adensar ainda mais a mistura, ao casar-se com Caramuru, a índia Paraguaçu também rebatizou-se, em plena França, como Catherine du Brésil, Catarina Paraguaçu, em homenagem a Catherine des Granches, a esposa de Jacques Cartier, que foi sua madrinha. Eis a cidade da mistura, a cidade da baía. Kirimurê, a baía de Todos-os-Santos, como uma boca aberta para águas de múltiplos mares, simbolizando e engolfando o caráter da cidade que a tudo devora e naturaliza. Não foi por acaso que inventamos a expressão “comendo água”. Ou a guitarra elétrica. Fato é que, internacionais pela própria natureza, abrimos aqui um porto verdadeiramente global muito antes da Big Apple, o que inspirou a sacada do tradutor Paulo César de Sousa: “Para quem nasceu na Bahia, Nova York sempre será periferia”.

Este ano, pela segunda vez consecutiva, a festa se dará sem festa. Por causa (ainda) da pandemia de coronavírus. Comemorar, no entanto, não significa exatamente celebrar, mas repensar coletivamente. E Salvador pede constantemente que se a repense. Inclusive porque parece sofrer da memória, tadinha, tão novinha... E ainda porque, se nasceu cidade da comunhão, do sincretismo, é também, desde sempre, a cidade das desavenças, da desigualdade, da precariedade, da exploração. E a praga só deixa tudo isso mais evidente. Eis a pergunta que podemos nos fazer, nós que a amamos tanto: Por que aqui tudo falta se aqui tudo transborda? E também: Será possível alcançarmos a disciplina necessária sem perder o fogo de nossa alegria? O que o legado do Caramuru teria a aprender com a tentativa de Tomé de Sousa? E vice-versa.

Para este aniversário, o grande desafio à população naturalmente gregária, rueira, é ficar em casa. A capital do tambor deve se mostrar também capaz de silêncio. Não está sendo fácil. Mas podemos tirar daqui lições para o futuro, como vacina. Encarar nossa face completa no espelho. Afinal, que caminho daremos à violência que nos últimos anos conseguiu fragmentar as periferias, tradicionalmente tão integradas? Em Salvador, é preciso matar 2 leões a cada 7 portas, já disse alguém. Que a gente saiba cuidar do minuto, sem, contudo, perder de vista os próximos 472 ou 512 anos. Amém.

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