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Bolsonaro, amnésia e metamorfose

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[Bolsonaro, amnésia e metamorfose]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 25 de Março de 2021 ⋅ 08:00

No mesmo dia em que o ex-juiz Sérgio Moro foi considerado pelo Supremo Tribunal Federal parcial ao condenar o ex-presidente Lula no caso triplex e o Brasil ultrapassar três mil mortes pela COVID-19 em 24 horas, o presidente Jair Bolsonaro fez um pronunciamento em cadeia de rádio e TV, o sétimo desse tipo em sua gestão. A fala do presidente, se precisasse ser reduzida a uma palavra, algumas das opções seriam mentira, distorção, omissão e recuo.

Em uma fala de 3 minutos e 21 segundos, o que Bolsonaro fez foi desdizer-se e apresentar promessas que não pode garantir que sejam cumpridas. Falou da vacina como se nunca a tivesse negado, como se sempre tivesse sido um entusiasta dela, ignorando a reação que o pronunciamento provocará: milhões de brasileiros e a imprensa trazendo de volta às redes sociais e ao noticiário as centenas de vídeos, áudios e declarações do presidente rejeitando a vacina, minimizando a pandemia e ofendendo o governador de São Paulo, João Doria, por trazer para o país a primeira vacina produzida em território nacional, a Coronavac.

Ao passar um ano condenando a vacina e defendendo o tal kit de tratamento precoce combatido pela ciência e depois irromper em cadeia nacional para anunciar em tom ufanista que 2021 é o ano da vacina, o que espera o presidente? Ou supõe que os brasileiros que não integram os 30% do seu núcleo resistente de apoiadores incondicionais sofram de amnésia irreversível, ou aposta que acreditemos que ele tenha passado por algum tipo de metamorfose. Aparece nas lives das quintas-feiras com uma caixa de cloroquina ao lado e poucos dias depois aparece em um pronunciamento ao país em defesa da vacinação em massa.

Nada nesse governo é assertivo ou garantido. E é bom não esquecer que a semana do pronunciamento começou com a circulação massiva, nos grupos bolsonaristas, de cards com informações fraudulentas. O presidente teria construído silenciosamente, com o apoio do Exército e de cientistas de Israel, o maior parque industrial para a produção de vacinas na América Latina, com 11 fábricas secretas. A ‘revelação’ é feita sob o epíteto “só um covarde não apoia esse homem”. Nessa e em outras variações das mensagens de WhatsApp e do Telegram, anuncia-se que o Governo Federal vai produzir 6 milhões de doses de vacina por semana.

KASSIO KONKÁ - As coisas estão cada vez mais difíceis em Brasília, ao ponto de o governo ter passado uma semana com dois ministros, mas, na prática, sem nenhum. A posse do substituto do general Eduardo Pazuello, Marcelo Queiroga, se deu às escondidas, fora da agenda. A carta dos banqueiros e economistas acusando o presidente de ineficiência na gestão da pandemia, a contagem regressiva para o fim do estoque, no país inteiro, dos medicamentos e insumos para o intubamento de pacientes e o pedido da cabeça do chanceler Ernesto Araújo por empresários são precipícios que se encadeiam na mesa de Bolsonaro.

No campo do judiciário, o presidente não deve ter dormido direito na noite do pronunciamento. Kassio Nunes Marques, já memificado como Kassio Konká, o ministro indicado por Bolsonaro para o Supremo Tribunal Federal, foi objeto de zombaria nas redes sociais por manobrar seu voto para tentar salvar Sérgio Moro diante do seu ressurgimento. Ele foi alvo de críticas de todos os lados, de juristas que o acusam de assassinar o código penal e de Gilmar Mendes, o malvado favorito dos críticos do Supremo, cuja ironia ferina sobre Kassio se tornou imediatamente um clássico entre as peças da oratória da Suprema Corte. Como se diz nas redes sociais, [Gilmar] jantou.

 

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