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Os melancólicos da ditadura e o caos

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[Os melancólicos da ditadura e o caos]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 01 de Abril de 2021 ⋅ 08:57

Desde o fim do regime militar, com a posse de José Sarney, em 1985, não se via na Presidência da República tamanha melancolia da ditadura. Cinquenta e sete anos depois do golpe, soavam muito esquisitas, nesse 31 de março de 2021, as capas dos principais jornais do país. As notícias que disputavam destaque com as da pandemia pareciam de um outro tempo, deslocadas de contexto. Eram inúmeras as referências aos militares, às possibilidades de ruptura da democracia e às garantias de estabilidade institucional. 

Numa coincidência grande demais para ser só isso, no dia 30 de março, véspera do aniversário oficial do golpe de 1964, os três comandantes das Forças Armadas entregaram o cargo ao presidente Jair Bolsonaro. A versão que prevaleceu foi a de que fizeram isso como forma de demonstrar que os militares são um bloco homogêneo, não divergem e, em bloco, discordam dos flertes do presidente com o golpismo. Mesmo depois de provocar a demissão dos comandantes e de mexer e remexer em várias pastas do seu ministério, o presidente saiu da semana mais frágil do que entrou e ainda está devendo aos aliados do Congresso as cabeças de Ricardo Salles e Milton Ribeiro, respectivamente do Meio Ambiente e da Educação.

Inicialmente, o bolsonarismo tentou vender a tese de que o presidente, exercendo sua autoridade de comandante em chefe das Forças Armadas, é que teria demitido os comandantes. Não foi. Não foi um episódio de demonstração de força do presidente, mas de enfraquecimento. Até segundo o vice-presidente Hamilton Mourão, foi uma demonstração dos militares de obediência ao Estado, à Constituição, e não ao presidente. 

SEM MÁSCARA - Desconfortáveis com as repetidas falas do presidente citando as Forças Armadas como suas e como ameaça a quem discorda dele quanto às medidas restritivas e postos à prova com a demissão do ministro da Defesa, o general Fernando Azevedo e Silva, os comandantes usaram o pedido de demissão como forma de avisar que as Forças não aderem ao desejo por golpe. Mas Bolsonaro, antes de tudo, é um teimoso. Abandonado pela elite das Forças Armadas na véspera, na quarta-feira o presidente foi à primeira reunião do comitê formado por governo e Congresso para discutir ações contra a pandemia. 

Na reunião, o novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, defendeu o uso de máscaras e criticou aglomerações. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, o cutucou com varas mais curtas, quanto à pandemia, à democracia e aos arroubos de autoritarismo: “Estamos absolutamente vigilantes a todo instante. Não permitiremos retrocesso. Temos só dois caminhos: a união ou o caos. Esta Presidência acredita que não há nem a mínima iminência de qualquer risco de rompimento. Mas, se houver, cabe a esta Presidência do Senado reagir”. O que fez o presidente após a reunião? Sem máscara, antes, durante e depois, criticou as medidas e disse: "Não é ficando em casa que nós vamos solucionar esse problema”. Pelo jeito, a opção foi, de novo, pelo caos.

 

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