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As telas que me olham

As telas que me olham

As telas que me olham

Foto: Reprodução

Por: Por André Lemos no dia 08 de janeiro de 2026 às 08:00

No livro O Colibri, de Sandro Veronesi, o narrador cita um trecho do Inferno de Dante no qual o poeta, ao encontrar almas invejosas, nota que todas têm os olhos costurados. Ele desvia o olhar. Como elas não podem vê-lo, ele também não deve olhá-las. Essa ação engaja uma ética que implica colocar-se em igualdade de condições com o outro. 

A questão do olhar na cultura digital está imersa nesse problema ético, pois estamos constantemente olhando para as telas e, muitas vezes, em detrimento das pessoas ao nosso lado. Não de forma incomum, quem está ao lado reclama atenção. E as telas nos veem pelos seus algoritmos, sem que saibamos como estamos sendo “vistos”. 

O olhar tem dimensões particulares em diferentes culturas. Olhar muito pode ser constrangedor; brindar sem olhar pode significar desprezo; olhar nos olhos pode significar intimidação… O certo é que o olhar se realiza e se materializa em uma relação corporal, afetiva e coletiva. Ser é ser percebido, dizia o filósofo Berkeley. 

Na cultura digital, tirar o olho da tela e focar nas pessoas é sinal de respeito, compartilhamento e atenção. Olhar para telas ainda significa timidez, busca por privacidade ou por segurança. Estar no mundo e captá-lo por meio de telas (fotos e vídeos) pode ser uma forma de evitá-lo. Ir a um show e “assisti-lo” pela câmera de um celular é perder a oportunidade de se entorpecer, preso aos ditames do aparelho. Na internet, não há olhar compartilhado; nas redes sociais não se vê o outro e, por isso, a relação estabelecida é considerada “virtual”.

Mas as telas veem nossos olhos por meio de algoritmos. Um olhar maquínico que induz nossa ação, monetiza nossa atenção e controla o acesso em captchas ou em câmeras de reconhecimento facial de empresas ou de dispositivos. O olhar da máquina é o do vigia, da ameaça e do comércio: não vê pessoas, mas códigos. Sem olhos, telas e algoritmos veem tudo. Somos nós que temos os olhos costurados em uma relação eticamente desequilibrada.

O artista finlandês Tatu Gustafsson desvia a função das telas. Ele se faz fotografar por câmeras de vigilância, em solitário, em estradas na Finlândia, perturbando o olhar da máquina, fazendo-se ver quando o alvo do olhar maquínico são eventos disruptivos de segurança. Ele é visto mesmo que a máquina não o deseje. 

Que estratégias adotaremos para estabelecer uma relação ética entre nosso olhar e as telas algorítmicas que, sem que percebamos, costuram nossos olhos?

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