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Caetano quase foi São Francisco de Assis na Sessão da Tarde

Porém, o diretor Franco Zeffirelli preferiu "um inglês convencionalmente bonito e de olhos azuis”

[Caetano quase foi São Francisco de Assis na Sessão da Tarde]
Foto : Divulgação

Por James Martins no dia 01 de Abril de 2021 ⋅ 11:10

Todo ano a Semana Santa, mesmo para quem não é cristão ou católico, impõe sua liturgia. Até a programação da tevê se adequa e exibe filmes sobre a vida de Jesus Cristo. E entre os mais reprisados está certamente “Jesus de Nazaré”, do italiano Franco Zeffirelli, com Robert Powell no papel do Salvador. Filmes sobre santos e afins também têm lugar de destaque na telinha nessa época. Mas, antes de entrar no assunto anunciado ali no título, me permitam contar uma historinha de Semana Santa que eu adoro. O poeta Vinícius de Moraes estava paquerando aquela que seria sua quarta mulher e que ele conhecera ainda menina, Maria Lúcia Proença, a Lucinha. Ambos, porém, são casados (ele com Lila, ela com Jorge). Um dia, por acaso, se encontram em Paris, livres de seus respectivos “conjes”, como diria Sérgio Moro. 

Daqui pra frente deixo a palavra com José Castello, biógrafo do poeta. "Um dia, está circulando por uma avenida quando uma voz masculina a chama aos gritos. Vem de um carro que diminui a velocidade. Vinícius está ao volante. Os dois se cumprimentam e ele pede seu endereço parisiense. É segunda-feira. O poeta a convida para jantar no dia seguinte. Lucinha, difícil, diz que só pode na sexta. Assim que fala, se corrige: - ‘Mas é Sexta-Feira Santa...'. E, algo constrangida, conclui: - 'Talvez seja melhor ficar para outro dia'. Vinícius, senhor de si, não a deixa esmorecer: - 'Não, Lucinha, não é Sexta-Feira Santa. É Sexta-Feira da Paixão', rebate. Está tudo dito".

Agora voltemos ao tema. Por falar em filmes de santos, o que pouca gente comenta é que Caetano Veloso quase quase estrelou um filme de Zeffirelli, anterior ao “Jesus de Nazaré”, mas não menos conhecido. Isso mesmo. O nosso cantor e compositor foi cotado para encarnar São Francisco de Assis em “Irmão Sol, Irmã Lua”, de 1972. A história é interessante e está registrada no livro “Verdade Tropical”, mas vou aproveitar pra acrescentar alguns detalhes que ouvi do próprio Caetano.

Quem teve a ideia de sugeri-lo para o papel foi Leslie Gould, executivo da Paramount, que era sua gravadora no exílio. Foram a Roma encontrar o diretor. Mas, ao chegarem à mansão de Zeffirelli, já encontraram-no com seu protagonista escolhido, Graham Faulkner. Depois de jurar que Caetano era a cara de Florinda Bolkan, o cineasta ainda o pediu que cantasse alguma coisa antes de dispensá-lo. “Eu ria por dentro ao pensar que o cara da Paramount é que estava propondo um mulatinho brasileiro magricelo para o papel de São Francisco, enquanto o diretor do filme queria um inglês convencionalmente bonito e de olhos azuis”, narra ele no livro.

Antes disso, porém, em seus primeiros momentos na Cidade Eterna, Caetano, Dedé (sua mulher então) e Guilherme Araújo (o empresário) pularam uma bela de uma fogueira. Devidamente hospedados no Hotel Excelsior, eles foram ver a Fontana di Trevi, ali pertinho. Como de costume na Itália, seus passaportes ficaram retidos para verificações, e, assim, sem lenço sem documento, os três acabaram presos. Por sorte, um líder estudantil brasileiro que também estava em Roma, sabendo que eles chegariam, decidiu procurá-los e, como não encontrasse, fez uma ronda nas delegacias e, após esclarecimentos, os soltou. "No fim disso tudo, Dedé e Guilherme ainda acenderam um charo em plena praça... e me ofereceram", lembra Caetano, com um misto de graça e revolta. 

Pois bem, nunca mais vi o filme, "irmão Sol, Irmã Lua", com os mesmos olhos. E certamente, a partir de agora, nem vocês. 

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