
O 'mamão' da Princesa Isabel
Mamãe foi uma das primeiras mulheres da cidade a dirigir automóvel. E fazia isso com a coragem de uma pioneira e a técnica de um pequeno desastre urbano

Foto: Reprodução Jornal Metropole
Hoje isso não impressiona ninguém. Mulher no volante, em Salvador, é apenas mais uma cidadã tentando sobreviver ao trânsito e aos ônibus atravessados. Mas nos anos 40 e 50, minha mãe dirigindo pela cidade era quase um acontecimento público.
Imaginem a cena. Uma dentista jovem, casada, alegre, falante, atravessando a Avenida Sete num enorme Plymouth 1951, enquanto as pessoas olhavam como se estivessem vendo uma nave espacial estacionando na Bahia.
Mamãe foi uma das primeiras mulheres da cidade a dirigir automóvel. E fazia isso com a coragem de uma pioneira e a técnica de um pequeno desastre urbano.
Meu pai, Jorge Kertész, homem bem-sucedido no comércio, insistia: “Você não precisa trabalhar”.
Mas ela precisava. Não exatamente do salário. Precisava da independência. Gostava de ganhar o próprio dinheiro para comprar suas coisas, presentear os filhos, viver sem pedir licença a ninguém. E gostava profundamente da profissão.
Trabalhou a vida inteira como dentista. Era dentista concursada da Prefeitura de Salvador e ainda participou da montagem do museu da Escola de Odontologia da Universidade Federal da Bahia.
Era expansiva, alegre, dessas pessoas que fazem amizade antes mesmo da apresentação. Conhecia todo mundo na prefeitura. Quando chegava o dia do pagamento, eu, menino, ia com ela até a tesouraria, instalada no prédio onde hoje funciona a Câmara Municipal. Enquanto os outros enfrentavam fila, mamãe entrava direto.
Não por arrogância. Por intimidade afetiva.
Cumprimentava tesoureiros, perguntava pela família dos funcionários, ria alto, conversava com todos.
Mas uma das minhas inúmeras lembranças dela continua sendo sua guerra permanente contra o automóvel. Ou, mais precisamente, contra o ato de estacionar.
Mamãe simplesmente não sabia estacionar. Chegava na Avenida Sete, parava o carro no meio da rua, baixava o vidro e convocava o primeiro motorista que aparecesse: “Por favor, venha cá estacionar esse carro para mim”.
E o cidadão estacionava.
Naquele tempo existia uma solidariedade urbana que hoje desapareceu. Ou talvez as pessoas apenas quisessem evitar uma tragédia mecânica maior.
O pobre Plymouth sofreu.
Era um carro bonito, americano, imponente. Depois de alguns anos sob os cuidados maternos, virou praticamente uma escultura expressionista sobre quatro rodas. Na hora da venda, ninguém perguntava o modelo.
Perguntavam: “Esse é o famoso mamão da Princesa Isabel?”.
Virara uma celebridade automobilística de Salvador.
E havia ainda a garagem da nossa casa, no começo de uma ladeira tão inclinada que parecia prova para pilotos da Força Aérea. Mamãe se recusava terminantemente a tirar o carro dali. Telefonava para o ponto de táxi, então chamado “carro de praça”, do Hospital Português.
O motorista vinha, retirava o automóvel da garagem, e ela saía feliz pela cidade, pronta para ampliar discretamente os prejuízos da lataria do carro.
Mas havia nela algo profundamente moderno para aquela época.
Enquanto muitos homens ainda discutiam se mulher devia trabalhar, ela já trabalhava. Enquanto achavam absurdo mulher dirigir, ela já dirigia.
Mal, é verdade. Mas dirigia.
Nunca fez discursos feministas, nunca levantou bandeiras ideológicas. Apenas viveu do jeito que queria numa época em que isso, sozinho, já era revolucionário.
E talvez por isso tenha deixado marcas tão profundas, apesar de ter morrido aos 49 anos de idade.
Algumas delas, inclusive, nos automóveis de Salvador.
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