METROPOLE

Domingo, 09 de maio de 2021

Os bilionários, os esfomeados e Deus

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

Os bilionários, os esfomeados e Deus

Foto: Angelucci Figueiredo/Divulgação

Por: Malu Fontes no dia 08 de abril de 2021 às 13:46

Um dos discursos mais repetidos pelas autoridades da República que criticam as medidas restritivas e são contrárias à adoção do lockdown para deter a circulação do vírus e diminuir os índices de morte pela covid é o de que, com a economia fechada, as pessoas não vão morrer de vírus, mas de fome. É como se só restasse ao mundo inteiro esta escolha: você prefere morrer de fome ou de covid? Felizmente, nem todo mundo – e nem todo o mundo – pensa assim. E embora pareça óbvio, sempre é bom lembrar: morto não vende, não compra, não trabalha, não consome. 
 
Com mais ou menos lockdown, o vírus continua se alastrando e só o pensamento mágico, a ignorância ou a má-fé para afirmar que, com tudo aberto, haveria menos mortos. Dentre as mais de 4.000 vítimas que entraram para as estatísticas num único dia, na última terça-feira, ninguém teve como causa mortis a fome, a desnutrição, a falta de alimento no corpo, embora a fome também já tenha se alastrado pelo país e embora haja gente muito esclarecida e supostamente bem-intencionada que argumenta sempre: ah, esses números são falsos. Agora só se morre de covid. Os médicos estão sendo obrigados a escrever nos prontuários de todo mundo que morre que foi covid, sem ser. Os prefeitos que não registram mortes pelo vírus não recebem verbas dos governos estaduais. 
 
Um ano depois da pandemia, os efeitos trágicos dela se espalham por toda parte, não só em número de mortos, contaminados ou sequelados após a cura. A olho nu e sem precisar recorrer à televisão, aos jornais e à web, se vê diariamente o aumento de pessoas vivendo nas ruas, gente aparecendo para dormir embaixo de marquises, famílias inteiras em sinais de trânsito e placas de vende-se e aluga-se numa quantidade jamais vista. O estrago do vírus em nossas vidas já é imenso e continua intenso, sem sinais de trégua e com o número de mortos e de contaminados em crescimento espantoso, mas previsível de acordo com alertas dos cientistas chamados inicialmente de alarmistas, mas que, até agora, infelizmente, não erraram nada em seus prognósticos epidemiológicos. 
 
 
INFERNO - Mas a vida real é simultânea e a mesma primeira página de um veículo jornalístico exibia, no dia em que pela primeira vez o Brasil ultrapassava 4.000 mortos em 24 horas, nestas três notícias, as camadas que compõem este país: “Fome cresce e, pela primeira vez em 17 anos, mais da metade da população não tem garantia de comida na mesa” (são mais de* 116 milhões nessa situação)”. “No ano da pandemia, Brasil ganha 11 bilionários na Forbes” (em bilhões de dólares, não em reais, registre-se). “Fome dispara, mas doações despencam”.  
 
À medida que vai avançando, o vírus vai aplicando lentes de aumento no que já era a realidade social brasileira. Ao aprofundar os precipícios entre as classes, a pandemia vai deixando a impressão de sabermos como é o inferno, qual a altura das labaredas, mas, mostrando também o quanto, como povo, somos cada vez mais incapazes de reduzir as chamas. Ao contrário, demonstramos muito talento para intensificar o fogo e nenhum para algum saneamento moral que diminua a nossa mesquinharia. Só nos resta plagiar Eduardo Cunha, o ex-todo poderoso e atualmente preso, aquele que apertou o play e deu início à dança do último impeachment: que Deus tenha misericórdia dessa nação. (Deus não teve).
 
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