METROPOLE

Sábado, 08 de maio de 2021

São João: do Samba Junino ao Arraiá da Capitá à pandemia

Mesmo antes do impacto negativo da pandemia, o ciclo junino já vinha se desvirtuando de seu caráter original

São João: do Samba Junino ao Arraiá da Capitá à pandemia

Foto: Divulgação

Por: James Martins no dia 22 de abril de 2021 às 09:30

Pois é, iniciamos mais um ciclo junino (que aqui começa logo após a semana santa) já sabendo que, pela segunda vez consecutiva, não teremos São João. Triste realidade. A matéria de capa desta edição do jornal trata do impacto (mormente econômico) de mais esse efeito da pandemia. Já aqui, quero abordar também o impacto propriamente cultural, e lembrar que, mesmo antes da chegada da peste, o nosso São João já vinha dando sinais de enfraquecimento e desvirtuamento. Sim, ninguém vai censurar se eu fizer a vez (ou a voz) do saudosista de plantão e proclamar: “São João não é mais aquele”. Mas prefiro começar pelo lado bom. Desde o ano passado, a prefeitura de Salvador instituiu o 17 de abril como Dia Municipal do Samba Junino. A data é a mesma em que, em 1978, jovens do Engenho Velho de Brotas, os irmãos Bafafé, fundaram o Grupo União, entidade que, a partir do ano seguinte, organizaria o concurso dos sambões que maravilharam minha infância: Jaké, Scorpius, Prego Duro e outros. A data é mais uma ação no sentido de valorizar esse importantíssimo movimento que, embora tenha muitos desdobramentos na música pop, no Axé Music, no pagodão, passou décadas como que esquecido e em vias de se acabar. Fato é que o ressurgimento do samba duro é em si o desmentido e o reforço daquilo que comecei a dizer lá no início. E é a partir dele que tentarei me explicar. 

Claro que acho lamentável a situação dos músicos, das costureiras, dos fabricantes de licor e de todo mundo que tira seu sustento das festas juninas e que, mais uma vez, ficarão a ver navios. Como também me parece admirável que o São João seja uma espécie de Carnaval dos forrozeiros, cuja maratona de shows garante, às vezes, o salário do ano inteiro. Porém, não consigo não lamentar (e aqui volta o samba duro junino a servir de paradigma) que uma festa essencialmente comunitária, vicinal, de casa em casa, tenha se tornado, seja na capital seja no interior, em mera promoção de festivais de música. E, o que é pior, nem sempre de música junina. Mas, nem vou discutir aqui a presença de Anitta ou Safadão nas festas das prefeituras, que não dá tempo. A base do problema, para mim, é que o São João tenha justamente se reduzido à festa da prefeitura, do estado, das produtoras, e não mais dos vizinhos, dos amigos e parentes.

E o que é que o samba duro tem a ver com isso? Ora, tudo! Surgidos como manifestação dos bairros periféricos de Salvador, foram eles que, reunindo centenas de milhares de pessoas no percorrer das ruas e adentrar as casas, demonstraram que a festa do interior tinha apelo também na capital. E surge assim o famoso Arraiá da Capitá. E assim o São João vai deixando de ser celebrado em cada rua para centralizar-se em um ponto. Atualmente, no Pelourinho. Mesmo no interior, o que se procura é o Forró do Piu Piu, Forró do não sei o que. Etc. É o que eu temo em relação ao retorno, digamos, institucionalizado dos sambões. Que se perca a dose necessária de espontaneidade que qualquer manifestação artístico-cultural precisa. Por mim, sinceramente, trocaria qualquer atração em qualquer palco pelo São João que minha mãe fazia em casa, bolo-licor-amendoim, onde recebíamos os vizinhos a cujas casas iríamos em seguida. E você?

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