Sábado, 19 de junho de 2021

Retroescavadeiras, cloroquina e outras drogas

A Presidência da República reservou mais de R$ 3 bilhões para parlamentares desembarcarem na intimidade do apoio ao presidente

Retroescavadeiras, cloroquina e outras drogas

Foto: Reprodução Jornal da Metropole

Por: Malu Fontes no dia 13 de maio de 2021 às 13:10

A pandemia fez com as mazelas do Brasil o que o luminol faz nos cenários de crimes. Acendeu as cores do sangue e da morte que estavam turvas. Todas as palavras e hipérboles se tornaram frágeis e inconsistentes para descrever um país que empilha, ao mesmo tempo, mortos por vírus, mortos por tiros e mortos por fome, e antecipa a morte do futuro ao inviabilizar o funcionamento das universidades e ignorar a agonia da escola pública. 

Na última quarta-feira, 12 de maio, telejornais amanheceram noticiando o iminente fechamento da Universidade Federal do Rio de Janeiro, por falta de recursos para despesas básicas, como o pagamento das contas de água, de energia elétrica e a manutenção dos serviços de limpeza. Disputando espaço nas manchetes com mortos por Covid-19, troca de tiros, pandemia e CPI, estão agora tratores e retroescavadeiras, superfaturados, adquiridos com dinheiro público, como foi denunciado pelo jornal O Estado de S. Paulo, no esquema batizado de 'tratoraço'. 

No Brasil em que falta dinheiro para a realização do Censo do IBGE e onde universidades federais centenárias correm o risco de fecharem as portas porque o corte de recursos inviabiliza até a descarga dos sanitários e a manutenção das luzes acesas, a Presidência da República reservou mais de R$ 3 bilhões para parlamentares desembarcarem na intimidade do apoio ao presidente. Está tudo comprovado em um planilhão do governo, numa prova de que mudam-se os nomes, mas cada governo tem e precisa de um mensalão para chamar de seu. 
O nome 'tratoraço' é só mais um verbete do dicionário da história ininterrupta da corrupção brasileira, o mais novinho. Para deixar boa parte do Congresso Nacional mais feliz e alugar o centrão, os bilhões que faltaram para a realização do Censo, para o custeio das universidades, para a concessão de auxílio emergencial e para a compra de doses de vacina, sobraram para pagar R$ 360 mil por cada trator que, para a iniciativa privada, é vendido por, no máximo, R$ 100 mil. 

Embora os parlamentares com nomes no planilhão neguem o que as anotações do próprio governo confirmam, os bilhões do 'tratoraço' foram aportados para adubar o apoio às candidaturas de Rodrigo Pacheco à presidência do Senado e de Arthur Lira à presidência da Câmara, ambos eleitos com o apoio do presidente Jair Bolsonaro. Com a entrada em cena da CPI da Covid, são pequenas as chances de os opositores do presidente emplacarem outra para investigar tantos tratores e tantas retroescavadeiras. Os veículos superfaturados foram usados para dragar bilhões públicos usando como escudo a Codevasf, a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco. Curiosamente, a maioria dos parlamentares beneficiados com milhões no planilhão nunca teve um voto nas bandas do rio São Francisco.

Mick Jagger - Se os apoiadores do governo já não digerem o jornalismo por publicizar todos os dias o número de mortos da pandemia, agora têm que lidar com dados desagradáveis expostos na mesa principal da CPI do Senado. Como ninguém é inocente no Planalto Central, o relator da CPI e raposa de pelo mais espesso do Senado, Renan Calheiros, agora recebe as testemunhas da comissão com uma placa destacando o número de mortes, atualizado dia a dia. E vejamos aonde chegamos: a CPI nos contou que o governo brasileiro só se dignou a procurar onde havia esquecido uma carta institucional da Pfizer, multiendereçada e enviada em setembro de 2020, oferecendo vacinas, porque uma celebridade interviu para fazer lobby. 

O dono da Rede TV, Marcelo Carvalho, o famoso ex-padrasto do filho de Mick Jagger, interveio, pedindo a Fábio Wajngarten, a pedido de um dos CEOs da Pfizer, casado com uma apresentadora da emissora de TV, para interceder junto ao presidente. Aí foi um Deus nos acuda para achar e responder a carta. Agora, vejamos se um país que funciona assim tem como dar errado. Talvez o azar da cloroquina e das outras drogas do kit tratamento precoce esteja no mero detalhe de nenhum manager das fabricantes ter escolhido como esposa uma apresentadora de TV brasileira. Assim fosse, as chances de o tratamento ganhar o selo de eficaz talvez fossem maiores.   

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