Sexta-feira, 30 de julho de 2021

Um cursinho de perguntas para os senadores, por favor 

Quem entende dos jogos em Brasília acredita que o “teje preso” de Dias foi uma armadilha para chegar ao líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), apontado como beneficiário nos esquemas paralelos para compra de vacinas e de quem o preso seria protegido

Um cursinho de perguntas para os senadores, por favor 

Foto: Reprodução Jornal da Metropole

Por: Malu Fontes no dia 08 de julho de 2021 às 09:18

Por conta das restrições à circulação a que todo o mundo foi submetido, explodiram cursos de tudo na modalidade on-line. Será que não há por aí nenhum curso remoto que ensine senadores a fazerem perguntas, a inquirir convocados, convidados, testemunhas e acusados numa comissão parlamentar de inquérito? Com raras exceções, o que se vê nas eternas sessões da CPI da Covid, que poderia ser rebatizada de CPI da vacina, depois da fase CPI da cloroquina, são senadores fazendo perguntas imprestáveis para gerar qualquer tipo de prova. 

Sim, o ex-diretor de logística do Ministério da Saúde, Roberto Dias, saiu preso da sessão da CPI dessa quarta-feira. Mas todo mundo viu: não foi por ter caído na armadilha de boas perguntas. Saiu preso porque o presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), anunciou ter perdido a paciência com Dias por este ter passado o dia mentindo. Teria sido a gota d’água que fez transbordar o copo, pois o que mais se viu nos depoimentos no Senado até aqui foi depoentes mentindo muito. O mesmo Aziz, na vibração de presidente da CPI, já tinha dito, diante de outros pedidos de prisão, que não seria carcereiro de ninguém. Ontem, desistiu de Dias e se tornou carcereiro. Quem entende dos jogos em Brasília acredita que o “teje preso” de Dias foi uma armadilha para chegar ao líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), apontado como beneficiário nos esquemas paralelos para compra de vacinas e de quem o preso seria protegido.

Quanto às perguntas ruins da CPI, e reiterando que a prisão de Roberto Dias não se deve a algo que tenham extraído dele, é óbvio que quem pergunta mal não consegue arrancar boas respostas, a não ser por acidente ou despreparo absoluto de quem é perguntado. Além dos ímpetos de atropelarem as falas de quem está sendo inquirido, os senadores parecem frequentemente não fazer na véspera o dever de casa, cruzar informações, confrontar dados, datas e afirmações. Renan Calheiros, por exemplo, raposa política astuta, com um currículo de expertise nos bastidores de Brasília construído por décadas, volta e meia parece um balbuciante lacrador sem outro objetivo, a não ser interromper com impaciência e irritação todo e qualquer depoente e gerar constrangimento, com estratégias que, exceto para a lacração, pouco servem.

Já que Renan acha que é moderninho e democrático levar para os inquiridos as perguntas das redes, que o faça de modo menos anacrônico. É constrangedora a seção pergunta dos internautas. Primeiro pelo anacronismo do próprio conceito de internauta, mais datado que o medieval ‘a nível de’, e tão cafona quanto o gerundismo. Que a web, as redes e a cultura do print não perdoam e tudo guardam, é verdade. Devem, portanto, ser fonte de munição para a construção de perguntas, estratégias de abordagem e argumentação. Mas daí a introduzir essa coisa mofada de pergunta do consulente dos programas de rádio dos meados do século passado, é inócuo. Juntando os dados circulantes nas redes e elaborando questões mais sofisticadas, iria-se mais longe. Mas qual a contribuição de levar para uma investigação uma pergunta enviada por seu josé ou dona maria de miracema do norte? 

UM CABO E UM REVERENDO - Deve ser por isso que as melhores perguntas e arguições têm vindo de senadores ou senadoras cuja trajetória passou pelo direito, pela medicina ou pela experiência policial, nesse caso do lado de dentro do balcão, claro. Senadores que já foram delegados têm feito perguntas precisas, dessas capazes de gerar provas, o que, afinal, deveria ser o objetivo da ida dos depoentes à comissão. Mas, enquanto as pontas da trama tecida nos bastidores do Ministério da Saúde ficam cada vez mais embaraçadas, o questionário e o bate boca pioram. Por mais que o telespectador tenha interesse em acompanhar a linha do tempo da comissão, é tanta personagem que só rascunhando um power point ou comprando uma cartolina. 

Numa mistura das séries Lost com Dark - a primeira, pela quantidade de personagens e inverossimilhança com que tanta gente estranha aparecia num cenário improvável; a segunda, pelo organograma complexo de quem é quem, que função tem e em que fase do tempo da pandemia apareceu, os vendedores e negociadores de vacina se multiplicam tanto que muita gente já se perdeu. Os mais recentes são um cabo da Polícia Militar que até pouco tempo trabalhava na guarita da sede do governo do estado de Minas Gerais, um reverendo que tem um negócio não governamental chamado de Secretaria Nacional de Assuntos Religiosos e uma fiscal de contratos bilionários do Ministério da Saúde que não fiscalizava nada. Antes que a gente aprenda o nome do cabo Dominguetti, do reverendo Amilton, com A, e da fiscal Regina Célia, mais vendedores e comissários de vacina vão aparecer para responder perguntas mal elaboradas na CPI. E agora, é aguardar o dossiê de Roberto Dias sair do armário. 
 

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