Sexta-feira, 30 de julho de 2021

Cuba e o soluço de Bolsonaro

Depois de seis décadas de ditadura dos irmãos Castro, Fidel e Raúl, os cubanos perderam o medo e foram para as ruas no último domingo pedir liberdade e gritar “abaixo a ditadura”

Cuba e o soluço de Bolsonaro

Foto: Reprodução Jornal da Metropole

Por: Malu Fontes  no dia 15 de julho de 2021 às 09:29

A pandemia acentuou os problemas sociais de todos os países do mundo. Não poderia ser diferente com Cuba, a ditadura de esquerda mais longeva do mundo, com uma população que há décadas experimenta toda a sorte de privação econômica. Com o embargo econômico mantido pelos Estados Unidos, a derrocada do turismo internacional causada pela Covid, a queda significativa da remessa de dólares enviados por cubanos exilados na Flórida, o desabastecimento de comida, insumos para vacinas e remédios e a crise de energia elétrica, a pressão social no país explodiu. 

Depois de seis décadas de ditadura dos irmãos Castro, Fidel e Raúl, os cubanos perderam o medo e foram para as ruas no último domingo pedir liberdade e gritar “abaixo a ditadura”. A primeira reação do presidente Miguel Díaz-Canel foi manter a culpa pela crise exclusivamente na conta do embargo dos Estados Unidos, prender cerca de 150 pessoas, cortar o fiapo de internet que existe na ilha, vinda de um cabo submarino da Venezuela, e anunciar que não houve protestos, mas uma ação orquestrada de contrarrevolucionários, manipulados pelos Estados Unidos para promover guerra entre os cubanos e desestabilizar o regime. Então tá. 

Em poucas horas os protestos cubanos caíram na roda da campanha eleitoral brasileira, essa que não termina nunca, desde o 2º turno em que Dilma Rousseff venceu Aécio Neves e levou pela metade, derrubada que foi pelo impeachment de 2016. A própria Dilma foi para as redes sociais manifestar seu apoio ao governo cubano e reiterar a responsabilidades dos Estados Unidos na falta de tudo em Cuba. Mas repercussão mesmo quem gerou foi o candidato do PT em 2022, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Perguntado sobre os protestos cubanos, Lula os considerou uma mera passeata e fez um paralelo, para minimizar a repressão contra os manifestantes, entre a ação do presidente Díaz-Canel e o racismo policial dos Estados Unidos. 

“Mas você não viu nenhum soldado em Cuba com o joelho em cima do pescoço de um negro, matando ele”, postou Lula, em sua conta no Twitter, numa referência à morte de George Floyd por asfixia, na cena em que um policial branco esmaga-lhe o pescoço com o joelho. Como no Brasil todos os dias a imprensa e as redes contabilizam milhares de referências à palavra ditadura e aos riscos que a democracia estaria sofrendo com as ações do governo Bolsonaro, a defesa da ditadura cubana pulou para a agenda da campanha. Bolsonaristas, antipetistas, dúzias de outros istas reagiram ao tom cordial e fofo como o PT trata as ditaduras de esquerda. Até a atriz Juliana Paes fez troça, perguntando se o silêncio que ela estava testemunhando no Twitter diante dos protestos em Cuba era aquilo mesmo ou um delírio comunista, só dela. 

TIKTOK E FACADA - Contrariando um dos lemas da revolução cubana que tomou o poder em 1959, ‘patria o muerte’, os críticos da ditadura subverteram o grito de ordem de Fidel e adotaram uma desconstrução, tornada famosa pelo rapper Maykel Castillo: ‘patria y vida’. Para a esquerda brasileira, é pecado criticar o modo como as coisas funcionam em Cuba. Nem mesmo os jovens ativistas progressistas, democráticos, antifascistas tocam no assunto em seus perfis. Não deixa de ser um excelente exercício de humor imaginar como a blogueiragem que sabe tudo e tem tudo a ensinar se comportaria se um governante do seu país fascista lhe cortasse a internet, lhe tirasse da rotina e de um clique só o Instagram, o Twitter, o TikTok, o Spotify, tudo o que é agregador de podcast e o Facebook. 

Voltando a Lula e às virtudes do regime cubano. Os defensores da terceira via se apagaram à defesa do governo cubano pela esquerda para reiterar a tese do ‘nem Lula nem Bolsonaro’. Já o próprio presidente, coitado, não pôde ainda dar qualquer pitaco sobre o que pode ser a primavera árabe à la Cuba. Depois de dias sofrendo com uma crise de soluços incessantes, Bolsonaro foi forçado a ficar mais calado. Cancelou parte dos compromissos oficiais e, como se diz no popular, baixou o hospital, com dores abdominais intensas. O soluço é real, mas o diagnóstico ainda era alvo de especulações até a noite de quarta, no fechamento desse texto: refluxo, estresse, doença intestinal. Fala-se até em redução cirúrgica de parte do intestino. E claro, sobem as teorias conspiratórias que mesclam facada, soluço, cirurgias e aquela doença. O mundo é hostil pra todos. De Cuba ao Haiti. De Joanesburgo a Brasília. 

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