Terça-feira, 26 de outubro de 2021

Os párias da van: ministro da Saúde dá o dedo, pega Covid e fica preso

E  viu-se na ONU o presidente brasileiro estrelar o espetáculo máximo do terraplanismo brasileiro, diante daqueles olhos do mundo

Os párias da van: ministro da Saúde dá o dedo, pega Covid e fica preso

Foto: Reprodução Jornal da Metropole

Por: Malu Fontes no dia 23 de setembro de 2021 às 11:31

Estranhamente, o jornal O Globo publicou no domingo um editorial Pollyanna nesses termos: ‘Bolsonaro tem chance de reparar imagem do Brasil. O jornal dos Marinho referia-se ao discurso a ser feito na terça-feira pelo presidente brasileiro na abertura da sessão anual da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, quando, nas palavras do Globo, ‘os olhos do mundo se voltarão momentaneamente para o Brasil’. O jornal foi objeto de chacota nas redes, por ainda depositar esse tipo de expectativa no capitão. Fora do circuito dos apoiadores do cercadinho do planalto e dos grupos do zap a tese já embolorou, de tão velha e gasta. De quem não se espera é de onde não vem nada mesmo. 

A terça chegou. E com ela a realidade. Jair Bolsonaro resolveu fazer no púlpito da ONU um discurso que parecia ter sido escrito sob medida para o cercadinho, para o curral, para o zap, ou para o gado, como prefiram. O presidente inventou um Brasil inexistente e convidou as imponentes autoridades diplomáticas das Nações Unidas a fazer o que parecia ser uma viagem sobre a irrealidade nacional cá nos trópicos. Descreveu um Brasil ficcional que ele, o herói da democracia e da liberdade, salvou do precipício socialista. O Brasil inventado por algum redator inspirado por alucinógenos ou cogumelos cultivados nas verdes bordas da terra plana tem, segundo o discurso, a melhor legislação ambiental de todo o mundo e aqui os índios vivem feliz e realizando seu maior sonho: transformar as matas em terras agricultáveis. 

A economia brasileira? A mais bem sucedida entre todos os países em desenvolvimento, segundo o presidente ilusionista. Os países ricos do mundo estariam se estapeando para injetar milhões de dólares e de euros aqui. Um país finalmente abençoado, por ser agora governado por um presidente que acredita em Deus, protege pessoalmente a família, impede que todas as criancinhas se tornem homossexuais e defende os cristãos, antes perseguidos. Não, o presidente não falava da sua cruzada pessoal para a ferro e fogo proteger a própria família, o zero um, o zero dois, o zero três e o influencer zero quatro, o mal diagramado novinho que essa semana publicou vídeos e fotos com armas de grosso calibre e, sobre as imagens, mandava um alô alô para a CPI da Covid. Aquela que cogita convidá-lo para depor, por suas relações perigosas, e as de sua mãe, com trambiqueiros e mascates que fizeram de um tudo para vender o que não tinham: vacinas, e superfaturadas, para o Ministério da Saúde. 

A família que Bolsonaro diz defender é a “de bem”, aquela que faz arminha com a mão para todo mundo e vai para manifestações de apoio articuladas por lideranças evangélicas vestida com camisetas pretas confy onde se lê e vê, em vermelho, Bolsonaro em pose mimetizando um Hitler com melasma e um lema muito do pós-cristão, supõe-se: “Armai-vos uns aos outros”. Não, não é erro de digitação. É mesmo uma troca de verbo. Os vendilhões do templo preferem, agora, dizer armai-vos ao invés do gasto amai-vos. Lições de Silas Malafaia e da bispa Sônia Hernadez, aquela que, lá no passado, pegou uma Bíblia daquelas grossas, fez uma imitação em madeira, oca, e a encheu de muitos dólares para carregá-lo para os Estados Unidos sem declará-los. Ganhou da Polícia  Federal uma tornozeleira eletrônica de brinde, pelo feito. 

E  viu-se na ONU o presidente brasileiro estrelar o espetáculo máximo do terraplanismo brasileiro, diante daqueles olhos do mundo dos quais falava O Globo. O inimaginável aconteceu. O capitão, em setembro de 2021, e com o filme de terror da Prevent Senior bombando no país, acha por bem propagandear os incríveis efeitos do tratamento precoce, aquele, das inas tidas: Cloroquina, Hidroxicloroquina, Azitromicina, etc. E dividiu o protagonismo da vergonha com toda a classe médica brasileira, pois ao autoelogiar-se pelo vanguardismo e ineditismo entre todas as nações do mundo por apostar no tratamento precoce, atribuiu a orientação para isso, como se fosse elogio, ao Conselho Federal de Medicina, que calado estava, calado ficou. Quem cala, consente.

PAU NA MESA

Quiséramos nós que fosse só isso. A pantomina do Brasil versão pária ganhou muitas camadas extras e simultâneas nessa temporada nova-iorquina. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, resolveu arrombar todas as cercas e chutar o pau da barraca da tal liturgia do cargo, expressão hoje tão fora de moda. Foi aconselhado pelo general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria Geral da Presidência, a colocar o pau na mesa (sic) no encontro com o primeiro ministro inglês Boris Johnson. Se colocou, ninguém sabe, ninguém viu. Mas que Queiroga lacrou, todo mundo viu. Se juntou ao bonde do maluco presidencial e se deixou fotografar comendo pizza com a máscara no queixo, na calçada, por proibidos que foram de entrar numa pizzaria, com Bolsonaro sem máscara e sem vacina. 

Na mesma noite, num bordejo na van por Manhattan, ficou pistola com manifestantes nas ruas, levantou-se do banco e, agressivíssimo, quis ser filmado dando o dedo médio para os críticos. A moral da história toda ainda não se sabe, mas a ressaca não foi boa. Queiroga pegou COVID e está obrigado a ficar 14 dias preso no quarto de hotel em Nova Iorque. Um hotel de luxo, graças a Deus, pago pelos cofres públicos e com o dólar pela hora da morte, o que deve gerar uma conta de uns 40 mil reais, por baixo. Se não precisar do caríssimo atendimento médico privado de NY. Aquela reparação da imagem do Brasil na ONU, a que se referia O Globo? Não rolou. Deu muito ruim. Ruim rude. Toda a comitiva brasileira, ao custo de muitos milhares de dólares, foi para Nova Iorque passar vergonha e ficar trancada em hotéis caros, em home office, ou nem isso. Mas como a viagem ainda não acabou, tomara que fique só nisso.  

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