Coluna Malu Fontes: a universidade enterrada viva

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[Coluna Malu Fontes: a universidade enterrada viva]
Foto : Metropress

Por Malu Fontes no dia 13 de Agosto de 2020 ⋅ 08:06

Faz pouquíssimo tempo que muita gente na universidade se assustava com a agressividade do Movimento Brasil Livre, o MBL, um dos primeiros sinais do bolsonarismo. Grupos avançavam nos campi das universidades públicas para interromper palestras e exposições, ofender e agredir professores e estudantes. Poucos anos depois, não resta vestígios do MBL nos espaços universitários. Mas, quem diria,
agora é o povo lá dentro mesmo, em nome de outras pautas e com outras palavras de ordem, que dá conta sozinho e entre si, do
silenciamento.

Lá em 2017, o MBL queria calar a universidade. Hoje, todo mundo quer calar todo mundo e, na tentativa, vale tudo. Quase todo
mundo que cursou uma universidade pública introjetou a percepção de que ali a palavra de ordem da formação era a liberdade de
ideias, pensamento, teses, autores. Óbvio que o mundo muda, e as universidades não só refletem isso como são laboratórios dessas mudanças. Agora, o ritmo e o fluxo parecem outros, e a impressão é a de que a universidade vem se tornando um cercadinho analógico das redes digitais. Multiplicam-se os grupos que esperam de currículos, cursos, professores e alunos a mimetização dos feeds, likes, biscoitos e cancelamentos. Não se trata de avaliar ou legitimar a justiça e a justeza das causas que transitam naturalmente entre a esfera pública e a universidade. O desafio é saber quais, hoje, são os grupos que sonham mais alto com um mundo onde se possa falar sozinho sem ser contraditado. Se antes a universidade era o espaço onde se podia debater quaisquer ideias, hoje amaldiçoado será quem ousar fazer convites para que as coisas sejam vistas numa perspectiva mais ampla que a das hashtags.

Nunca falamos tanto em liberdade de expressão e nunca foi tão desafiador exercê-la sem correr riscos de ser empurrado para o exílio dos degredados intelectuais. De um lado, os terraplanistas de Jesus acusam-nos de balbúrdia, orgias sexuais e do cultivo de drogas em laboratórios financiados pelo comunismo chinês. Do outro, a patrulha da esquerda roots manda calar a boca e classifica o que é formação, ensino e pesquisa como manutenção do patriarcado e do machismo tóxico que a todos oprime e massacra. Como corrigir hoje um texto numa universidade se tudo está certo e se toda correção é sinônimo de imposição de sofrimento?

Brancos, negros, gordos, gays, lésbicas, órfãos, assexuados, dependentes químicos, católicos, evangélicos, pobres, ricos, fundamentalistas e tudo isso misturado agarraram cada um suas certezas sobre seus modos de descrição das coisas e vão para a trincheira, onde todos querem matar a palavra do outro. Talvez por isso, enquanto parece haver um pacto barulhento de enterrar a universidade viva, asfixiá-la sem palavras, a literatura anêmica e os textos de autoajuda débeis façam tanto sucesso. As platitudes aguadas servem tanto para você, quanto para a tia malhada, a amiga obesa, o invertebrado, o defensor do cateter de ozônio e os zen pai de pet ou mãe de planta. E o que agrada todo mundo o faz exatamente por isso, por não servir para nada nem para ninguém.

Mas, andiamo. Com o empurrãozinho do vírus, caminhando juntos e fazendo de conta que não percebemos o quanto estamos tecendo relações sem meio termos: ou fazemos parte das galeras ofensivas e violentas ou engordamos a fila dos puxa-sacos, aduladores e signatários dos elogios ocos. A biscoitagem das redes é muito mais que a gíria da moda. É a adesão ao convívio social e à manutenção dos laços paroquiais sem o risco e sem o desconforto de apontar para a falta de substância das coisas. Sejamos todos dóceis, não queiramos guerra com ninguém. 

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