Terça-feira, 26 de outubro de 2021

Pátria amada, pátria armada, Brasil 

Para o presidente, antes do seu governo só bandido podia ter arma. Agora, todo mundo pode

Pátria amada, pátria armada, Brasil 

Foto: Reprodução Jornal da Metropole

Por: Malu Fontes no dia 14 de outubro de 2021 às 09:39

A essa altura, o adjetivo comunista não deve estar sendo nem um pouco economizado nas hostes bolsonaristas para classificar Dom Orlando Brandes, arcebispo da Arquidiocese de Aparecida. Na homilia de uma das missas na catedral, no feriado de Nossa Senhora Aparecida, Dom Orlando condenou uma das pautas principais do governo Bolsonaro, o armamento da população, como caminho, segundo palavras reiteradas do presidente, para a liberdade do povo. 

Sem citar nomes, condenou as armas e o uso da imagem de crianças associadas a elas, numa referência implícita às cenas protagonizadas pelo presidente na semana anterior, em Minas Gerais, quando carregou nos braços uma menina vestida em uniforme camuflado militar segurando um fuzil. De brinquedo, supõe-se, embora nesse país, nunca se saiba onde termina o real e começa a mentira. 

“Pátria amada não é transformar crianças inocentes em crianças-fuzil. Pátria amada não é transformar a criança em consumista. As crianças precisam de outras armas, da oração, da obediência, da convivência com seus irmãos. E para ser pátria amada não pode ser pátria armada”. A crítica foi feita de manhã, em uma das seis missas do dia. À tarde, o presidente participou de uma delas, acompanhado dos ministros João Roma e Marcos Pontes. Embora esteja muito mais presente em ambientes evangélicos e tenha se batizado em Israel, em 2016, nas águas do Rio Jordão, pelo Pastor Everaldo, preso por corrupção no ano passado, no Rio de Janeiro, o presidente Bolsonaro é católico. 

TIRO DE FEIJÃO - Recebido entre aplausos e vaias simultâneas em Aparecida, Bolsonaro só se pronunciou sobre as críticas do arcebispo um dia depois. Em resumo, saiu-se mais ou menos assim: todo mundo é livre para defender o que acredita e criticar as coisas das quais não gosta. Considera armas essenciais para a liberdade de um povo, o bem maior (a liberdade, não a arma) de uma nação. Para o presidente, antes do seu governo só bandido podia ter arma. Agora, todo mundo pode. E quem não tem, ele mesmo já disse, há quem o cobra por priorizar a defesa do armamento da população em detrimento do combate à fome: “quando invadirem tua casa, tu dá tiro de feijão”.

A família de bem até pode ter armas agora, e não só o bandido, como diz Bolsonaro. Mas parece que a equação da violência não foi alterada com essa mudança trazida por políticas públicas. Bandidos continuam matando tanto quanto, e a posse de armas por parte das pessoas certas não tem impedido o banditismo de fazer nada. Ao contrário: quanto mais pessoas de bem com armas, maiores as chances de armas compradas legalmente irem parar em endereços imprevistos e projéteis em corpos de quem nada tem a ver com bandido nem com comprador de armas bem intencionado. 

Com gente mais ou menos armada, de concreto mesmo só dá para ter certeza de que, a essa altura, Dom Orlando já foi classificado como o bispo vermelho e que o núcleo evangélico do bolsonarismo achou tudo o que aconteceu em Aparecida pouco, bom e doce. Quem mandou ir homenagear imagens católicas? Fosse num templo evangélico, não haveria vaia nem sermão com críticas embutidas. Nada melhor para os malafaias da vida do que assistir ao presidente hostilizado por fiéis de outras crenças. Enquanto isso, Silas, o pastor, está consumindo o juízo nas redes sociais para esculhambar ministros que não têm pulso para obrigar o Senado a votar logo a ida de André Mendonça, o terrivelmente evangélico congelado, para a vaga vazia do Supremo Tribunal Federal. Se Deus foi consultado, não se sabe, mas que já está no meio da campanha para a reeleição, ninguém tem dúvida. Não é sobre fé. É sobre votos.

Pátria amada, pátria armada, Brasil  - Metro 1