Segunda-feira, 06 de dezembro de 2021

É o começo do fim, mas o pesadelo não acabou

A morte do maestro Letieres Leite, nessa quarta-feira, foi um choque para a cultura e a música. Por se tratar de Letieres, uma unanimidade

É o começo do fim, mas o pesadelo não acabou

Foto: Reprodução Jornal da Metropole

Por: Malu Fontes no dia 28 de outubro de 2021 às 14:47

Após 20 meses vivendo sob um pesadelo, começamos a experimentar perspectivas de normalidade. Os números do Brasil e do mundo já apontam o reacender das luzes no fim do túnel, a retomada da vida nas ruas e no trabalho, para quem não perdeu o seu durante a pandemia, esse substantivo que nos era absolutamente abstrato até março do ano passado e se transformou em um precipício. O vírus devastou famílias, empregos, países, como o Brasil, onde, hoje, numa roda de conversa com 10 pessoas dificilmente haverá uma que não tenha perdido para o vírus um ente querido. 

A retomada das festas, dos shows, dos teatros, a reabertura salas de cinema, a proximidade do verão, a vontade de viver algo parecido ao que vivíamos antes de tudo isso começar estimulam a gente a acreditar que já chegamos à outra margem segura do rio. Na prática, não é exatamente assim. A morte do maestro Letieres Leite, nessa quarta-feira, foi um choque para a cultura e a música. Por se tratar de Letieres, uma unanimidade. Um artista encantador, gentil, talentoso, generoso, comprometido com o universo e o contexto musical da Bahia no sentido mais abrangente de compromisso. Um criador de música e um formador de talentos para alimentá-la, um virtuose que ia dos trios elétricos nas ruas às partituras traduzidas para meninos e meninas salvos da crueldade do mundo pela beleza de aprender a tocar um instrumento. 

O choque causado pela morte de Letieres em grande parte dos baianos e em todo o mundo da música brasileira foi duplo. Por se tratar dele, um homem e um músico do seu tamanho, com a sua grandeza pessoal e artística. Mas também por sabermos tê-lo perdido para o vírus que assombra o mundo desde março do ano passado. Por sabermos tê-lo perdido a essa altura do tempo, quando já começamos a nos sentir a salvo da COVID. Aos 61 anos, o maestro já havia tomado as duas doses da vacina e estava prestes a receber a terceira. Asmático, portanto grupo de risco, Letieres contraiu o vírus e não resistiu. Morreu em casa, de Covid. 


ROLETA-RUSSA - Por termos passado meses a fio sabendo da morte diária de milhares de pessoas, tornou-se natural achar que o pesadelo acabou porque a média de mortes está em torno de 330 brasileiros por dia. Para quem perde um parente, um amigo, não existem frases com ênfase no “apenas”, sejam 330, 100 ou 10, quando chegarmos a isso. Quando a perda é nossa, só existe o absoluto. Nesse sentido, a morte de Letieres foi como uma explosão na cidade, a nos avisar que os riscos ainda estão por aí, a nos rondar e ameaçar, apesar da vacina. E como muitos de nós já sabemos, há algo de roleta-russa no contágio do vírus: nunca se sabe como cada um, independentemente de fatores de risco e comorbidades inexistirem, atravessará a doença e suas manifestações. 

O fato de o maestro ter morrido em casa não deixa de ser um sinal do quanto a Covid é traiçoeira. Sendo o homem inteligente que era, Letieres provavelmente teria ido para um hospital se os sinais de agravamento tivessem avançado progressivamente. Algo de surpreendente parece ter ocorrido. E diante de campanhas antivacina circulando por aí, nesse instante deve haver, inclusive, teorias contra a imunização, usando a morte do maestro como argumento para inverter a lógica da imunização, negando a eficácia da vacina ou até mesmo apontando-a como causa. 
 

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