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Coluna Malu Fontes: violentos e malvados são os outros

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole; confira o texto publicado nesta semana

[Coluna Malu Fontes: violentos e malvados são os outros]
Foto : Metropress

Por Malu Fontes no dia 06 de Agosto de 2020 ⋅ 09:30

Um dos principais consensos sobre as redes sociais é o diagnóstico de um abismo entre o que as pessoas são, em suas vidas miudinhas, e o que elas expõem em seus perfis. Mas talvez isso valha mais para imagens que para os textos e as palavras. O que cada um escreve, principalmente nos comentários das publicações alheias, dão bem a medida do tamanho do diabo que habita em nós e vive a se espraiar pelas frestas do que digitamos.

Lendo o que muita gente boa e até boazinha escreve no feed dos outros, os versos de Chico César servem como reza: ‘Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa/da bondade da pessoa ruim’. Posts sobre a ação orquestrada dos bolsonaristas para atacar, ofender e destruir a reputação do youtuber Felipe Neto são um laboratório para mensurar a bondade contida em gente que se acha do outro lado da corda no mapa da superioridade moral.

Como na tese da minissaia que até hoje vigora em quem passa pano para estuprador, naquela lógica do ‘ah, mas com uma roupa dessas, ela queria o quê?’, a esquerda hype frequentemente é flagrada toda preparada nos argumentos nessa linha torta: ‘ah, longe de mim dizer que ele merece, justificar o que estão fazendo com ele, mas está colhendo o que plantou, ao incentivar o ódio contra o PT, Lula e Dilma na internet’. São muitas as variações da esquerda preocupada com os discursos de ódio, o dos outros, claro, mas a toada é a mesma, sempre essa, a de que quem agora é massacrado pelas campanhas de desinformações dos radicais do ultrabolsonarismo sabe sim porque está apanhando.

ESQUERDA JUSTICEIRA - Dizem coisas assim e acham que disfarçam o filete de vingança que escorre no touch. A tentativa de fazer crer que discordam dos violentos e que estão dizendo outra coisa só piora e escancara a moralidade torta. Ver bolsonaristas insanos e petistas magoados batendo boca em rede social é a cara da cena antológica dos dois desconhecidos que lutam até a morte, abraçados e carbonizados dentro de um carro, num acidente, num precipício, no filme argentino Relatos Selvagens (2014). Entre ficar vivo e ser feliz ou ser o que tem razão, os personagens se agridem até a morte, agarradíssimos. O policial que os encontra mortos dá sua impressão diante dos cadáveres: foi um crime passional. E tá errado?

A bondade prescritiva que aponta sem nenhuma dúvida para o que é certo e errado é o motor dos engajamentos. Todo mundo precisa se pronunciar no júri popular das redes, quase sempre para esganar e amordaçar o réu ou a vítima, que já não têm nenhuma diferença. Ou é normal uma pessoa, numa postagem em que o assunto é mais um desses gurus asquerosos que usam Deus para fazer sexo com meninas e mulheres por anos, escrever que, aos 16 anos, a vítima sabia muito bem a diferença entre abuso e sexo consensual? Deus nos livre da bondade religiosa dessas almas sebosas. Se o assunto é sexo, política, violência, a lógica de acusar a vítima é a mesma.

Entre a direita que monta uma engrenagem na web para espalhar que um influenciador digital é pedófilo e a esquerda justiceira que diz bem feito em outras palavras, a perspectiva é o precipício. Mas até ambas morrerem, abraçadas no abismo, boa parte de todos nós será empurrada junto. Para a carbonização, os canceladores justos todo dia fazem sua parte. Achando-se aqueles beija-flores que carregam gotinhas d’água no bico para apagar incêndios, acham mais potente carregar gasolina.

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