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Sucateamento da Unifacs: Professores com doutorado recebem R$ 400 de salário

Se antes três professores ensinavam para três turmas de 40 alunos cada, agora, apenas um profissional leciona para um grupo de 120 pessoas.  

[Sucateamento da Unifacs: Professores com doutorado recebem R$ 400 de salário]
Foto : Tácio Moreira/Metropress

Por Alexandre Galvão no dia 03 de Setembro de 2020 ⋅ 07:00

Graduação, mestrado, doutorado e um salário de R$ 900 ou até mesmo R$ 400. Essa é a realidade de muitos professores que atuam na Universidade Salvador (Unifacs), do grupo Laureate, uma das instituições mais caras da capital baiana. Com a pandemia causada pelo coronavírus, a instituição agrupou turmas e diminuiu a distribuição para os professores. Com isso, se antes três professores ensinavam para três turmas de 40 alunos cada, agora, apenas um profissional leciona para um grupo de 120 pessoas.  

Além do impacto de trabalho, com 120 avaliações para corrigir, tirar dúvidas e dar assistência, houve uma queda drástica na remuneração, como conta um professor que preferiu não ser identificado na matéria. “Essas junções acabam diminuindo a nossa carga horária. Somos remunerados por hora de aula dada. Então, meu salário que era de R$ 5,5 mil, caiu num primeiro momento para R$ 2,7 mil e agora, nesse último mês, eu recebi R$ 900”, afirmou.  Há quem esteja em um impasse ainda pior. Outro professor, também ouvido sob condição de anonimato, disse que ficou sem nenhum turma para lecionar, com a junção feita pela universidade. Para ser demitido – o que iria contra um acordo feito com a instituição – recebe por 2h de aulas semanas, 8h ao fim do mês. Salário: R$ 400.  

“Eu fui um professor que fui descartado. Não existe turma para mim. Eu estudei para ser um professor por sete anos e meio. É frustrante viver nessa profissão, entrei por puro prazer e você se vê descartado”, desabafou. Para ele, há um claro prejuízo na formação de alunos. “Eu já tive turmas de 40, de 15, de 23 alunos. O problema são turmas gigantes. Turma de 100 pessoas é um absurdo. Eu acho que 60 já é muito grande. A aula deixa de ser aula e vira uma palestra. Não é para ser assim”, afirmou. 

Em nota enviada ao Jornal da Metrópole, a Unifacs confirmou a junção de turmas, mas disse que a medida foi “excepcional”. Para a afiliado ao grupo Laureate, houve uma “ampliação” no volume de programas de apoio financeiro, como o parcelamento de mensalidades e o seguro universitário. “Como forma de apoiar docentes e estudantes nesse contexto, bem como manter a qualidade acadêmica das aulas, a instituição adotou diversos mecanismos de suporte ao processo ensino-aprendizagem, dentre os quais destacamos: a monitoria educacional para auxílio nas interações ao vivo e no relacionamento com os alunos”, destaca.

Em relação ao salário dos professores, a instituição afirma “não ter havido modificação nos valores de hora-aula praticados no semestre passado”. “A Unifacs segue o padrão de vencimentos praticado para a categoria na região e de acordo com a quantidade de horas-aula dedicadas dos professores nas disciplinas ofertadas no período letivo”, alega.

A universidade não se manifestou, no entanto, sobre os salários de R$ 400 e R$ 900 pagos a doutores que lecionam na instituição. 

Não bastasse toda polêmica sobre o salário dos professores, a Unifacs recentemente esteve envolvida em outra questão: a contratação de Catia Raulino, suposta jurista que não tem nem mesmo formação em direito. Ela lecionou na universidade e, segundo alunos, dava aulas “rasas” e “rápidas”. “Sendo muito sincero, a aula dela era muito objetiva. Eu tinha a impressão de que não dava o conteúdo de maneira correta. Era muito objetiva, muito diferente do que você vê nos cursos de Direito. Era tudo muito simples”, relatou um aluno que pediu anonimato. Questionada sobre a contratação de Raulino, a universidade se esquivou da responsabilidade e disse que “não comenta dados sobre profissionais que não integram o quadro de colaboradores da instituição”. A instituição afirmou ainda que Cátia Raulino não ministra mais aulas na universidade. Cátia, no entanto, mantém no seu currículo Lattes a informação de que orienta três dissertações de mestrado na Unifacs.

Essa não foi a primeira queixa vinda do quadro de professores durante a pandemia do coronavírus. No início da crise sanitária, a instituição passou a obrigar que docentes gravem aulas sob o pretexto de passar o conteúdo para classes online em que eles lecionam, por conta da pandemia do coronavírus. O contrato, no entanto, prevê a cessão completa dos direitos de imagem e voz, sem que eles recebam nenhum valor adicional por conta da gravação, ou posterior aproveitamento das gravações. A instituição afirma não existir “interesse em usar o material gravado pelos docentes para qualquer outra finalidade que não a própria aula”.

O Metro1 teve acesso ao documento que diz, em uma das suas cláusulas, que o professor cede “plenamente” os seus direitos. Além disso, a Unifacs afirma no contrato que o conteúdo poderá ser exibido em qualquer lugar do mundo, em ambientes virtuais de aprendizagem e vale até mesmo se o professor for desligado do grupo educacional. Contatada pela Metrópole, a instituição diz que as cláusulas garantem a “segurança” dos professores e afirma que “solicitou ajustes para que não haja dúvidas sobre o teor e necessidade do material”.

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