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Europa vive onda de protestos com crise do custo de vida, insatisfação política e tensão institucional; entenda
Internacional
Europa vive onda de protestos com crise do custo de vida, insatisfação política e tensão institucional; entenda
França, Alemanha, Portugal e Reino Unido registram manifestações nas últimas semanas, enquanto a Polônia enfrenta uma crise entre governo, oposição e Tribunal Constitucional.

Foto: Gouvernement français
A Europa atravessa, nas últimas semanas, uma sequência de protestos que reúne insatisfações de diferentes grupos e países. O aumento do custo de vida, a crise habitacional, a falta de investimentos em serviços públicos, as dificuldades enfrentadas pela população jovem e conflitos políticos estão levando milhares de pessoas às ruas. No sábado (31), manifestações ocorreram em diferentes pontos do continente, em uma mobilização que ganhou força especialmente entre a chamada Geração Z.
Na França, os protestos chegaram ao terceiro fim de semana consecutivo. O movimento começou no fim de setembro com estudantes insatisfeitos com as condições das escolas, a falta de professores e os investimentos em educação, mas rapidamente incorporou outras reivindicações, como o custo de vida, preços dos combustíveis, moradia e críticas ao governo de Emmanuel Macron. Os chamados “coletes amarelos”, movimento que ganhou força originalmente contra o aumento dos combustíveis, também voltaram às ruas.
A mobilização francesa alcançou centenas de milhares de pessoas. Segundo as autoridades, cerca de 320 mil manifestantes participaram dos atos deste sábado, número inferior aos 410 mil registrados na semana anterior e aos 550 mil do dia 17 de outubro. Apesar da redução, pequenos grupos entraram em confronto com a polícia, e houve registros de incêndios e saques. Mais de 70 mil agentes de segurança foram mobilizados no país.
A crise também ultrapassou as fronteiras francesas. Na Alemanha, jovens organizaram manifestações em cidades como Berlim, Frankfurt, Colônia e Munique. O movimento “Gen Z regelt”, ou “A Geração Z trata disso”, cobra investimentos em educação e saúde, medidas de proteção ambiental e melhores condições econômicas. A possibilidade de retomada do serviço militar obrigatório também aparece entre as preocupações dos manifestantes. Os atos foram programados para coincidir com o Halloween, estratégia usada pelos organizadores para aumentar a participação e a visibilidade do movimento.
Em Portugal, milhares de pessoas voltaram a ocupar o centro de Lisboa para protestar contra o aumento dos preços dos imóveis e dos aluguéis. Os manifestantes pressionam o governo a retirar um projeto de lei que, segundo os críticos, pode facilitar despejos e acabar com limites para novos contratos de aluguel. O problema habitacional se agravou nos últimos anos: os preços das casas mais que dobraram desde 2017, enquanto os valores dos novos aluguéis praticamente dobraram.
No Reino Unido, a mobilização tem outro foco. Em Londres, um protesto em frente à Embaixada dos Estados Unidos terminou com dezenas de detenções após manifestantes demonstrarem apoio à organização pró-palestina Palestine Action, proibida pelo governo britânico. A polícia informou posteriormente que 139 pessoas foram presas. A legislação britânica considera crime demonstrar apoio à organização, classificada pelo governo como terrorista. Uma manifestação semelhante ocorreu em Edimburgo, na Escócia, sem registro de prisões até o momento.
Enquanto as ruas registram manifestações, a Polônia enfrenta uma crise institucional. O conflito entre o governo do primeiro-ministro Donald Tusk e o presidente Karol Nawrocki se agravou após uma disputa pelo comando do Tribunal Constitucional. Uma juíza suspendeu o presidente da Corte, Bogdan Swieczkowski, ligado ao antigo governo nacionalista do Lei e Justiça, e assumiu interinamente o comando do tribunal. A decisão provocou protestos diante da Corte e levou Nawrocki a interromper uma viagem internacional e retornar ao país.
O episódio é mais um capítulo de uma disputa que se arrasta desde 2015, quando o então governo do Lei e Justiça realizou nomeações para o Tribunal Constitucional que passaram a ser questionadas pela União Europeia e, posteriormente, pelo governo de Tusk. Desde que voltou ao poder, em 2023, o primeiro-ministro tenta reformar o sistema judicial, mas enfrenta resistência do presidente e da oposição nacionalista.
Apesar de terem origens diferentes, os episódios mostram um continente marcado por pressões econômicas e políticas simultâneas. Para a juventude, o custo da moradia, as perspectivas de trabalho e a qualidade dos serviços públicos aparecem entre as principais preocupações. Uma pesquisa da União Europeia citada pela Reuters aponta que 40% dos jovens de 16 a 30 anos demonstravam preocupação com preços e custo de vida em 2025.
A onda de manifestações, portanto, não representa necessariamente um único movimento europeu. São protestos com pautas próprias, mas que compartilham uma insatisfação crescente com o custo de viver, a capacidade dos governos de responder às demandas sociais e, em alguns países, com o funcionamento das próprias instituições democráticas.
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