Sexta-feira, 27 de março de 2026

Faça parte do canal da Metropole no WhatsApp

Home

/

Notícias

/

Jornal da Metropole

/

Festa brochante: Bolsonaro usa dia histórico da Independência como palanque eleitoral

Jornal Metropole

Festa brochante: Bolsonaro usa dia histórico da Independência como palanque eleitoral

No Bicentenário da Independência do Brasil, a palavra que se destacou foi “imbrochável”, que foi dita e repetida pelo presidente da República

Festa brochante: Bolsonaro usa dia histórico da Independência como palanque eleitoral

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Por: Geovana Oliveira/Rodrigo Daniel Silva/Nardele Gomes no dia 08 de setembro de 2022 às 11:30

Reportagem publicada originalmente no Jornal da Metropole em 8 de setembro de 2022

No dia em que se celebrou os 200 anos da Independência do Brasil, marco histórico para o país, a palavra que se destacou foi “imbrochável”. Advindo não de algum tipo de broche, mas do desempenho sexual do presidente da República Jair Bolsonaro (PL). O termo foi repetido pelo presidente e seus apoiadores, aos gritos, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. 

O bicentenário se transformou em um palanque eleitoral para Bolsonaro, que busca a reeleição. Mas não só: o presidente voltou a repetir discursos em tom golpista e em ameaça à jovem democracia brasileira.

Pela manhã, durante o desfile do 7 de Setembro na Esplanada, o presidente disse que, se for reconduzido nas eleições deste ano, trará para “as quatro linhas todos os que ousam ficar fora delas”. “O conhecimento também liberta. Hoje, todos sabem quem é o Poder Executivo. Todos sabem o que é Câmara dos Deputados. Todos sabem o que é Senado Federal. E todos sabem o que é o Supremo Tribunal Federal [STF]”.

Apesar do esforço para moderar o tom, os especialistas avaliam que Bolsonaro continuou deixando a entender que a qualquer momento poderia haver um golpe à democracia. “Ele se movimentou ao extremo para parecer mais moderado, mas ele sempre cita ali as quatro linhas… cria mensagens quase que subliminares”, diz o professor e cientista político Cláudio André. 

Ainda segundo o professor da Unilab, o evento que deveria ser uma ode ao republicanismo e à democracia, virou uma campanha eleitoral para o atual presidente. “Ele se utilizou de um momento das Forças Armadas para tornar aquele momento um palanque eleitoral”, afirma.

O palanque em que Bolsonaro discursou não contou com a presença dos representantes dos poderes Legislativo e Judiciário citados por ele. Mesmo convidados, não compareceram os presidentes do STF, Luiz Fux; do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG); e da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PL-AL).

Estiveram presentes chefes de Estado de três países de língua portuguesa. Entre eles, o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa. Ao lado de Bolsonaro, estavam a primeira-dama Michelle Bolsonaro
e o vice Hamilton Mourão.

Foi ao se referir à primeira-dama, após um beijo, que o presidente puxou a fala sobre ser “imbrochável”, que repercutiu mal entre o eleitorado feminino — ponto fraco de Bolsonaro. Nas redes sociais, as presidenciáveis Simone Tebet (MDB) e Soraya Thronicke (UNIÃO) condenaram as falas do adversário político.

“No dia da Independência do Brasil, o presidente mostra todo seu desprezo pelas mulheres e sua masculinidade tóxica e infantil. Como brasileira e mulher, me sinto envergonhada e desrespeitada”, escreveu Simone em publicação no Twitter.

Quadrilheiro de nove dedos

Pelo país, manifestações em favor de Bolsonaro se espalharam. Em Salvador, houve o tradicional desfile no Campo Grande, com a presença do governador Rui Costa (PT) e do prefeito Bruno Reis (UNIÃO), mas também ocorreram atos em apoio ao presidente da República. Os apoiadores insultaram o STF, aos ministros da Corte, ao chamarem de “vagabundos” e “bandidos de togas”, e pediram “fora comunistas”

O ex-ministro da Cidadania, João Roma (PL), que tem montado literalmente na garupa de Bolsonaro para tentar se eleger governador da Bahia, participou do ato no Farol da Barra. Roma também adotou tom crítico em relação ao Judiciário brasileiro. “Não será nenhum usurpador de toga, não será nenhum ativista judicial que vai nos impedir de cultuar nossas tradições, os nossos valores e as nossas crenças”, afirmou.

No Rio de Janeiro, o presidente fez seu segundo pronunciamento, quando novamente pediu votos e aproveitou para criticar o ex-presidente Lula (PT), seu adversário nas eleições de outubro. 

“Compare o Brasil com os países da América do Sul. Com a Venezuela, com o que está acontecendo na Argentina, e compare com a Nicarágua. Em comum, esses países têm nomes que são amigos entre si. Todos são amigos do quadrilheiro de nove dedos que disputa a eleição no Brasil”, disse o presidente.

Nem brado, nem cavalo

Há exatos 200 anos o Brasil tornava-se independente de Portugal, num brado retumbante de “independência ou morte”, gritado por D. Pedro I em seu cavalo. Certo? Não, não foi bem assim. A independência não se concretizou no 7 de setembro, D. Pedro I não montava um cavalo e sim um burro e talvez o brado nem tenha sido assim tão retumbante.

É claro que essas imprecisões não tiram a importância da data cívica, comemorada há 200 anos pelo povo brasileiro. “D. Pedro gritar ‘independência ou morte’ pode ser que nem tenha ocorrido”, disse o historiador e professor da USP João Paulo Pimenta, em entrevista a Mário Kertész.

“Aconteceram umas coisas no dia 7 de setembro, mas elas não foram muito importantes para a definição da separação política entre Brasil e Portugal. Outras coisas foram mais importantes”, acrescentou.

O 7 de setembro é um marco histórico muito mais ligado ao sul e sudeste do Brasil, mas de fato o episódio acontece entre conflitos muitos mais decisivos para que as tropas portuguesas fossem expulsas, os mais importantes deles no nordeste do país.

Entre esses episódios mais importantes, estão a Revolução Pernambucana, ocorrida em 1817. Está ligada à crise socioeconômica que o nordeste atravessava havia quase um século pela desvalorização do comércio de açúcar e algodão brasileiros no mercado externo. Revoltosos tomaram o governo local, mas acabaram derrotados.

Já em 1823, deu-se a Batalha de Jenipapo, confronto sangrento envolvendo piauienses, maranhenses e cearenses contra as tropas portuguesas do Major João José da Cunha Fidié. Os brasileiros, sem qualquer experiência, lutaram com instrumentos simples. Perderam a batalha, mas fizeram com que a tropa inimiga desviasse seu destino. 

Por fim, o 2 de Julho na Bahia, também em 1823, em que os baianos finalmente expulsaram as tropas portuguesas depois de uma guerra sangrenta.