Jornal Metropole
Exposição no Muncab celebra mais de 600 obras de artistas baianos repatriadas para Salvador

Sem alternativa, moradores de rua são submetidos a constante sofrimento mental e físico em seu cotidiano; para encarar a dura realidade, muitos acabam aderindo ao uso de drogas

Foto: Júlia Britto
Reportagem publicada originalmente no Jornal da Metropole em 10 de novembro de 2022
Uma verdade inquestionável: a realidade das pessoas que vivem nas ruas é cruel e bastante desafiadora. Invisíveis à população, podendo ser encontrados em becos, calçadas, debaixo de viadutos ou pontes, os moradores de rua são obrigados a enfrentar a fome, ao frio, e a escassa falta de assistência. Basta sair nas ruas, olhar para os lados e perceber o apelo de muitos daqueles que já quase nāo possuem mais fala, e reconhecer que precisamos dar voz ao povo que clama por ajuda, por recursos mínimos para sobreviver, e que sāo seus por direito, assim como uma oportunidade de se reerguer.
Morador de rua, Wilson Tavares da Silva, 57 anos, reside no bairro de Pernambués desde que nasceu. Localizado em um terreno baldio, o local onde vive é composto apenas por um colchão disposto em cima do chão de terra, cadeiras e uma mesa improvisada com pedaços de madeira. Segundo Wilson, não existe nenhum tipo de apoio do Poder Público, recebendo ajuda apenas, esporadicamente, de um centro social urbano da comunidade.
Em Salvador, apesar de existirem duas propostas atualmente em funcionamento, sendo elas: Girassóis de Rua, da Prefeitura Municipal de Salvador, e o Corra Pro Abraço (SJCDH), voltadas para as pessoas em situação de rua, ainda assim, não há nenhum programa voltado para acolher os mesmos. A falta de interesse do Poder Público é outro fator que agrava drasticamente a situação, deixando muitas pessoas e famílias em grau de risco.
Segundo o psiquiatra e professor aposentado da Faculdade de Medicina da UFBA, Antônio Nery, “Os Centros de Atenção Psicossocial CAPS, são serviços públicos criados pelo Ministério da Saúde, como uma alternativa à hospitalização dentro da lógica antimanicomial e da Reforma Psiquiátrica. São serviços que atuam no território onde estão situados. Infelizmente, as prefeituras cuidaram/cuidam mal desse importantíssimo equipamento de saúde mental, o que tem levado à degradação física e técnica dos CAPS. Esses centros consistem em três tipos: infância/ adolescência; adulto e álcool e outras drogas. Em SSA, existem apenas dois CAPS ad para cuidar de uma população de quase 3 milhões de pessoas”.
Uso de drogas como forma de encarar a realidade
Dada a situação em que se encontram, vivendo em constante sofrimento psíquico mediante às violências físicas e sociais enfrentadas, alguns desses moradores de rua acabam aderindo ao uso das drogas como um refúgio para longe de suas duras realidades. No entanto, além de suas condições mentais serem prejudicadas, o eventual consumo dessas drogas também afeta diretamente na saúde desses indivíduos, podendo acarretar doenças físicas.
Apesar de existirem outros fatores contribuintes para evacuação dessas pessoas às ruas, a sociedade, em sua grande maioria, também não se interessa em ajudar, em razão de suas histórias sociais. Para Nery, ninguém escolhe viver nas ruas, sendo o último lugar para quem não tem lugar para onde ir. Frequentemente há casos em que a própria família não é o lugar para muitos homens e mulheres, mesmo ainda crianças, tendo sido vítimas de violência física e abusos sexuais, da fome, e entre outras circunstâncias, e não há lugares onde possam “dormir com os dois olhos fechados” ou onde as pessoas possam aprender um ofício e construir alternativas emancipatórias.
📲 Clique aqui para fazer parte do novo canal da Metropole no WhatsApp.