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Receita à brasileira: desigualdade e falta de oportunidades intensificam cenário de violência

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Receita à brasileira: desigualdade e falta de oportunidades intensificam cenário de violência

Disparidade colossal entre elite brasileira e a maioria da população pavimenta o caminho pra uma sociedade cada vez mais violenta

Receita à brasileira: desigualdade e falta de oportunidades intensificam cenário de violência

Foto: Tânia Rego/ Agencia Brasil

Por: Nardele Gomes no dia 27 de abril de 2023 às 07:00

Atualizado: no dia 27 de abril de 2023 às 08:04

Reportagem publicada originalmente no Jornal Metropole em 27 de abril de 2023

De um lado, ricaços brasileiros residentes em Miami fazem filas virtuais pra comprar jatinhos e iates super caros. Do outro, os miseráveis se amontoam atrás de um caminhão de lixo em busca de comida pra dar aos filhos. Esta imagem chocante com jeito de caricatura é o retrato que se repete da brutal desigualdade vivida pelo país. Quer números? 10% da população tem 80% do país no bolso, enquanto a metade mais pobre divide a tapas 1% da “riqueza” nacional. Uma fatia tão pequena dividida por tanta gente não poderia resultar de outro jeito: fome, miséria, desemprego, deseducação, desalento. Como imaginar que o cinismo que tal injustiça representa não se traduziria também em violência?

Causa e consequência? 

É raso e leviano associar a pobreza à violência. Muitos fatores sociais geram violência, e ela se desencadeia também na rota da riqueza. Por outro lado, é clara a relação entre desigualdade econômica e o aumento das taxas de criminalidade. A desigualdade de renda põe à margem do sistema produtivo parte da população, favorecendo atividades ilegais como forma de sobrevivência. Crimes como roubo, furto, sequestro relâmpago, a violação dos direitos humanos, exposta pela violência policial, vêm na esteira da desigualdade. E uma desigualdade brutal como a brasileira, gera também uma violência brutal.

Possíveis soluções 

Como resolver? Existem caminhos. Um estudo publicado em dezembro de 2021, realizado na Escola de Economia de Paris e codirigido pelo economista Thomas Piketty (autor de O Capital no Século XXI, entre outros livros), se debruçou sobre os países com maiores níveis de desigualdade. O Brasil aparece como um dos primeiros da lista. O estudo sugere que, em casos como o nosso, a taxação progressiva de multimilionários permitiria investimentos em educação, saúde e transição ecológica. E isso se traduziria na diminuição progressiva da desigualdade. Parece óbvio, e ao mesmo tempo a elite finge que não vê.

O estudo elogia também políticas de redistribuição de renda como o Bolsa Família, mas ressalta que, sem uma estrutura que mude a origem do recurso, como uma reforma fiscal que aumentasse a contribuição desta elite econômica de acordo com suas capacidades, quem paga o Bolsa Família é a classe média, e a elite segue se comportando como Maria Antonieta, alienada da realidade do povo.

Mudança urgente 

Lá na França, Maria Antonieta acabou na guilhotina, como seu marido, o Rei Luis XVI, mostrando que a combinação de injustiça social, desigualdade econômica e alienação política dão errado desde que o mundo é mundo. Aqui no Brasil o caldo já entornou faz tempo, e a cadeia de consequências dessa combinação perigosa e cínica é extensa. Para qualquer caminho que se tome, os resultados são de longo prazo, exceto um: manter tudo como está, que é o caminho mais fácil. Neste caso, os resultados da inércia são imediatos. Mais desigualdade, mais violência.