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Segunda-feira, 04 de março de 2024

Jornal Metropole

A cor dessa cidade: blocos afros completam 50 anos e continuam lutando para por patrocínios

Blocos afros e afoxés completam 50 anos exaltando a cultura e levando o Carnaval de Salvador para todos os cantos do mundo, mas permanecem na luta por apoio para desfilar na rua

A cor dessa cidade: blocos afros completam 50 anos e continuam lutando para por patrocínios

Foto: Bov-BA/Mateus Pereira

Por: Lila Sousa no dia 08 de fevereiro de 2024 às 00:00

Atualizado: no dia 08 de fevereiro de 2024 às 10:28

Reportagem publicada originalmente no Jornal Metropole em 08 de fevereiro de 2024

O Carnaval de Salvador atrai olhares de todo o mundo. As ruas se enchem de cores, música e alegria, mas uma coisa quase sempre falta: apoio aos blocos afros e afoxés. Representantes da cultura afro-brasileira, eles ainda lutam para marcar presença na folia. Como se já não bastasse a luta contra o racismo e a desigualdade, eles também encontram uma resistência constante para pertencer. E uma batalha tem a ver com a outra. Afinal, a dificuldade de colocar blocos negros na rua é reflexo da desigualdade racial.

O Ilê Aiyê, primeiro bloco afro do Brasil, completa 50 anos neste Carnaval. Foi meio século resistindo para promover sua cultura. Antônio Carlos dos Santos, o Vovô do Ilê, relata que, apesar deste ser um ano muito especial e emocionante, é também um ano difícil. Nem o marco dos 50 anos sensibilizou empresas e iniciativas privadas. “O governo e a prefeitura ajudam, mas não está muito fácil. O Carnaval hoje se chama ‘carnanegócio’, não dá mais para fazer como antes, juntar uns amigos e colocar um bloco na rua. Hoje, está muito profissionalizado”, desabafa Vovô do Ilê.

Os empresários e patrocinadores, com o poder de mudar essa realidade e cobrir os custos operacionais, parecem virar o rosto. Para Vovô, esse desafio tem nome: racismo. Afinal, o que justificaria um dos blocos mais famosos, conhecido como o mais belo dos belos, ainda ter dificuldade para desfilar? “Estamos em um bairro como a Liberdade, com grandes lojas, bancos, e ninguém ajuda. Todo mundo faz seu negócio, consome tudo na Liberdade, mas tem a dificuldade dos empresários quererem colocar a marca deles junto com a negrada”, disse ao Jornal Metropole.

Onde tudo começou

Esse é o mesmo relato de Gilsoney Oliveira, presidente dos Filhos de Gandhy, um dos mais tradicionais de Salvador. Mas nem a fama do “tapete branco” na avenida é capaz de garantir apoio. O olhar dos patrocinadores parece estar mesmo naqueles que podem emplacar a música do Carnaval ou que renderão likes nas redes. “É obrigação das grandes telefonias, cervejarias, supermercados, apoiar e fomentar a cultura [...] porque o fundamento disso tudo é o movimento afro e afoxé. Tudo começou por nós”, diz Oliveira.

Apoio Público

Neste ano, tanto prefeitura como governo do estado têm como tema de Carnaval a cultura afro, na tentativa de exaltá-la e, quem sabe, estimular o apoio privado. A gestão municipal anunciou o investimento de R$8 milhões nos blocos afros e afoxés. Já a administração estadual, por meio do o projeto Ouro Negro, investiu R$ 15 milhões, o maior volume da história. Para a secretária estadual de Promoção da Igualdade Racial, Angela Magalhães, esses 50 anos de blocos afros são traduzidos como 50 anos de resistência e fortalecê-los é evidenciar a multiplicidade que a presença africana tem na cultura baiana.

Assim como no Ilê e Gandhy, a história se repete com o Malê Debalê. O presidente Cláudio Araújo reconhece o apoio público, mas garante que, com gastos para fantasias, vistorias e tantos outros itens, a conta ainda não fecha. E apesar de tudo isso, são os blocos afros que vendem e valorizam a cultura baiana e o Carnaval de Salvador.

“O turista vem por conta da nossa imagem, que é vendida a peso de ouro. Quando essa grana chega, nós precisamos pedir esmola. Salvador é capital afro porque nós fomos berço de cultura”, desabafa Claudio.