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Pedido de tombamento do Palácio Thomé de Souza reacende debate sobre memória e patrimônio
Pedido de tombamento do Palácio Thomé de Souza escancara a omissão do poder público na preservação da memória coletiva de Salvador e do legado de Lelé

Foto: Samanta Leite/Metropress
Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 05 de fevereiro de 2026
A permanência do Palácio Thomé de Souza, sede da Prefeitura de Salvador, na Praça Municipal voltou ao centro do debate, em meio a decisões judiciais e questionamentos sobre a ocupação do espaço. Arquitetos, pesquisadores e especialistas em patrimônio ligados à Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (Ufba) protocolaram um ofício solicitando, em regime de urgência, a abertura do processo de tombamento do edifício, como forma de garantir proteção legal ao imóvel e a permanência dele na primeira Praça dos Três Poderes do Brasil.
O pedido foi encaminhado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ao Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) e à Fundação Gregório de Mattos (FGM), numa tentativa de barrar o risco concreto de demolição ou desmontagem do prédio, que voltou a ser tratado como possibilidade real. O documento é assinado pelos arquitetos Ceila Cardoso e José Fernando Minho, coordenadores do Grupo de Pesquisa FABER – Arquitetura, Construção, Tecnologia e Patrimônio, vinculado à Ufba.
O grupo é formado por pesquisadores de diversas universidades brasileiras, e a iniciativa conta também com a colaboração do arquiteto e professor da Ufba Sérgio Ekerman, grande estudioso da obra do arquiteto que projetou o Thomé de Souza, João Filgueiras Lima, o Lelé. No ofício, os especialistas argumentam que a decisão pela retirada do edifício é desproporcional, foi tomada à margem de critérios técnicos e desconsidera o valor arquitetônico, histórico e urbano do palácio.
Longo impasse
A iniciativa escancara um impasse que se arrasta há mais de duas décadas e expõe a fragilidade das políticas de preservação do patrimônio no país. Desde o início dos anos 2000, o prédio é alvo de ações do Ministério Público Federal (MPF), que questiona a legalidade da construção na Praça Municipal e sustenta que o edifício compromete a ambiência histórica do conjunto tombado do Centro Histórico de Salvador. Em diferentes momentos, decisões judiciais chegaram a determinar a demolição ou a retirada da sede do Executivo municipal do local, criando um cenário permanente de instabilidade institucional.
Inaugurado em 16 de maio de 1986, o Palácio Thomé de Souza foi construído em apenas 14 dias, durante a gestão do então prefeito Mário Kertész. O projeto de Lelé apostou em estrutura metálica, aço e vidro, ocupando uma área de cerca de 2 mil metros quadrados onde antes funcionavam um estacionamento e o jardim conhecido como Cemitério de Sucupira. A obra marcou o retorno da prefeitura ao espaço que historicamente concentrou o poder político da cidade.
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Coração da cidade
A Praça Municipal não é um espaço qualquer. Trata-se do núcleo original do poder em Salvador. Ali estiveram, desde o período colonial, os principais centros de decisão da cidade, incluindo o Palácio Rio Branco, antiga sede do governo estadual. A poucos metros da Câmara de Vereadores, o Thomé de Souza reafirma essa lógica urbana, cívica e simbólica, ao manter o Executivo no lugar onde sempre esteve.
Ainda assim, o edifício passou a ser tratado como um elemento indesejado no conjunto histórico. O questionamento judicial sobre sua permanência ignora que a cidade é formada por camadas sucessivas de ocupação e que o patrimônio não se resume a construções coloniais ou do Século 19. Ao contrário, o prédio de Lelé representa uma etapa decisiva da arquitetura moderna brasileira e da própria história administrativa de Salvador.
Arquiteto especialista em patrimônio moderno e professor da Ufba, Nivaldo Andrade diz que, apesar de toda a polêmica que envolve a construção do palácio, o prédio já foi incorporado à paisagem. “Há gerações de soteropolitanos e turistas que nunca conheceram a praça fundacional de Salvador sem o edifício de Lelé”, completa.
Ambiguidade e silêncio dos órgãos de preservação
Ao longo dos anos, o caso ganhou contornos de conflito institucional recorrente. A cada nova decisão judicial, o Palácio Thomé de Souza volta a ser ameaçado, enquanto os órgãos de preservação se mantêm em posição ambígua. O próprio Iphan já reconheceu o caráter cívico da Praça Municipal, em portaria publicada em dezembro do ano passado.
O ofício protocolado pelos arquitetos aponta diretamente essa omissão. No documento, o grupo sustenta que a ausência de proteção formal expõe o prédio a decisões que desconsideram critérios técnicos e ignoram o amplo apoio à sua preservação. Professores, pesquisadores, entidades da sociedade civil e cidadãos manifestaram-se em defesa do palácio, com registros reunidos em dossiê anexado ao pedido de tombamento.
Para os signatários do requerimento, tratar o Thomé de Souza como um obstáculo à preservação do Centro Histórico é distorção do debate. A eventual demolição do edifício não apenas apagaria um marco da arquitetura moderna, como também desorganizaria a leitura urbana da Praça Municipal, rompendo a lógica histórica de concentração dos poderes e esvaziando simbolicamente o espaço.
A solicitação de abertura do processo de tombamento recoloca o tema em outro patamar. Mais do que uma discussão arquitetônica, o caso expõe um embate sobre qual cidade se pretende preservar e quais histórias merecem permanecer de pé. No centro desse confronto, o Palácio Thomé de Souza segue como símbolo de uma política patrimonial fragmentada, marcada por decisões contraditórias, omissões institucionais e o descaso com o legado de um dos arquitetos brasileiros mais importantes do último século.
Lelé, a genialidade do arquiteto construtor
Com apenas 25 anos, o arquiteto carioca recém-formado pela antiga Faculdade Nacional de Arquitetura João Filgueiras Lima recebe a missão de colocar de pé uma superquadra inteira de Brasília, onde viveu o cotidiano desafiador e cruel dos canteiros de obra recém-instalados no coração do Cerrado brasileiro. Nessa época, além de realizar projetos de Oscar Niemeyer, Lelé deu início às investigações em pré-fabricação que, anos depois, lhe dariam régua e compasso para erguer edifícios inteiros em duas semanas.
Seu trabalho na nova capital ficou conhecido e na década de 1970 ele é convidado para vir a Salvador para colaborar com a implantação do Centro Administrativo da Bahia, onde os pré-moldados concebidos por ele revolucionou as edificações, núcleo da gestão estadual. Foi no CAB que ele projetou um clássico da arquitetura moderna, a Igreja da Ascensão do Senhor. Outra igreja traçada pelo arquiteto foi a de Nossa Senhora dos Alagados, inaugurada pelo papa João Paulo II.
Nos anos seguintes, Lelé realizou grandes obras de infraestrutura na cidade a partir da implantação da fábrica da Companhia de Renovação Urbana, a Renurb, entre os anos de 1979 e 1982 e depois com a Faec, a Fábrica de Equipamentos Comunitários, entre 1985 e 1989.
Dessas duas experiências saíram sistemas de contenção de encostas, canais de drenagem e escadarias drenantes, a reformulação do transporte de massa a partir da Estação da Lapa, dezenas de escolas, creches, edifícios administrativos, banheiros públicos, pontos de ônibus, bancos de praça, as passarelas que se tornaram ícones da paisagem de Salvador e a própria sede da prefeitura, entre outras intervenções no Centro Histórico.
Lelé também revolucionou o processo de ampliação do saneamento básico na capital. Da mesma forma com a qual tocou os demais projetos, o uso de peças leves de argamassa armada permitiu que os trabalhos fossem levados adiante sem remover a população de suas casas para dar passagem aos tratores pesados.
Mais atual do que nunca
Décadas antes de qualquer discussão mais avançada sobre crise socioambiental, Lelé já tomava a sustentabilidade como princípio de sua arquitetura. Isso se traduzia na otimização da iluminação e ventilação, mas também na busca por economia em todo o processo construtivo: “Ninguém pode pensar uma peça que não caiba no caminhão”, ele dizia.
Para os locais de difícil acesso a transportes pesados, ele desenvolveu módulos de argamassa armada que não eram maiores do que dois homens adultos poderiam carregar. Um dos críticos à tentativa de apagamento da memória de Lelé e coautor do pedido de tombamento do Thomé de Souza, o arquiteto José Fernando Minho acredita que a relevância desse legado fica ainda mais evidente diante das preocupações contemporâneas com sustentabilidade.
Segundo Minho, a redução do gasto de energia e o controle do desperdício eram as preocupações de Lelé, e que em algum momento a construção civil deverá se voltar para os ensinamentos que estão contidos na obra dele.
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Desabafo de filha
Apesar de toda importância para a história de Salvador, boa parte do legado de Lelé foi perdida ou descaracterizada. Dezenas de escolas e creches já foram demolidas e mais de dez das passarelas originais foram desmontadas e substituídas. A arquiteta Adriana Filgueiras Lima, filha de Lelé, critica a falta de sensibilidade do poder público e afirma que a memória do pai está sendo gradativamente apagada. “O tombamento do Thomé de Souza é a única forma de evitar que isso aconteça”, desabafa.
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