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Cidade do barulho: veja os bairros de Salvador com mais denúncias de poluição sonora

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Cidade do barulho: veja os bairros de Salvador com mais denúncias de poluição sonora

Pituba lidera o ranking de denúncias de poluição sonora em 2026, enquanto Itapuã, Rio Vermelho, Brotas e Paripe também aparecem entre os bairros mais barulhentos; festas, bares, paredões e obras estão entre os principais motivos

Cidade do barulho: veja os bairros de Salvador com mais denúncias de poluição sonora

Foto: Jefferson Peixoto/Secom PMS

Por: Duda Matos e Laisa Gama no dia 13 de agosto de 2026 às 07:00

Matéria originalmente publicada no Jornal Metropole na edição do Jornal Metropole do dia 13 de agosto 

Em Salvador, o barulho parece ter endereço certo. Ou melhor, vários endereços. Em 2026, a Pituba aparece no topo da lista de bairros com mais denúncias de poluição sonora na cidade. Na sequência vêm Itapuã, Rio Vermelho, Brotas e Paripe. Juntos, os registros ajudam a revelar uma cidade onde o descanso frequentemente disputa espaço com festas, bares, paredões, obras e até a movimentação de escolas e creches.

Os dados foram fornecidos ao Jornal Metropole pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (Sedur). Ao todo, 10.802 reclamações de poluição sonora foram registradas em Salvador neste ano. O número ainda é parcial e não pode ser comparado diretamente com o total de 2025, quando foram contabilizadas 24.592 denúncias.

A liderança da Pituba também não é novidade. O bairro já estava entre os cinco mais denunciados no ano passado, ao lado de Itapuã, Rio Vermelho, Pernambués e Brotas. Quatro deles continuam no grupo neste ano. Este ano, Pernambués saiu, e Paripe entrou.

Os registros mostram que o barulho não tem uma única cara. Este ano, bares, restaurantes e boates aparecem como as principais fontes de denúncias, seguidos por veículos particulares e residências. Mas, para quem vive nesses bairros, a disputa pelo sossego pode começar de manhã, atravessar a tarde e seguir madrugada adentro.

Onde o ouvido sofre mais

Líder do ranking de denúncias de poluição sonora em Salvador este ano, a Pituba reúne diferentes fontes de ruído ao longo do dia. Moradora do bairro há 17 anos, a designer gráfica Luísa Alves, de 25 anos, conta que festas de madrugada e comemorações em prédios vizinhos estão entre os principais incômodos.

Na Rua Altino Serbeto de Barros, onde mora, ela também convive com o barulho de obras em prédios e imóveis da vizinhança. Apesar de o problema ocorrer durante o dia, é à tarde e, principalmente, de madrugada que a situação se intensifica. “Não consigo dormir, às vezes eu preciso dormir de fones de ouvido”, afirma.

Já o estudante de Jornalismo Bernardo Vasques, de 22 anos, que mora na Pituba há cerca de dois anos, chama atenção para a própria dinâmica do bairro. Durante o dia, a movimentação de colégios e creches dá lugar, à noite, ao movimento de bares e boates, a exemplo dos que estão instalados na Rua Guillard Muniz, também conhecida como Baixo Itaigara.

Morador próximo a um restaurante e a um bar, Bernardo diz que o principal incômodo ocorre à noite, quando volta para casa depois do trabalho. “Como chego tarde em casa na maioria dos dias, som alto e o barulho do pessoal na saída, me incomoda bastante”, ressalta. 

Passar barulho em Itapuã

Em Itapuã, as queixas de moradores estão mais ligadas à concentração de festas e paredões. Em 2024, o bairro ocupava o primeiro lugar no ranking de denúncias de poluição sonora. Neste ano, caiu para a segunda posição , mas o barulho ainda continua de primeira.

A estudante de Medicina Veterinária Maria Luísa, de 20 anos, mora no bairro desde que nasceu e diz que o som alto já faz parte da rotina, principalmente no Alto do Coqueirinho, onde vive. Segundo ela, paredões, festas e som alto dos próprios moradores estão entre os principais problemas, especialmente aos domingos à noite.

Em alguns casos, as festas atravessam a madrugada e só terminam por volta das 7h de segunda-feira. “É difícil não ter um final de semana sem”, conta, ao falar sobre a frequência dos eventos. “O paredão no domingo só acaba na segunda de manhã, e eu tenho que mudar meu trajeto para conseguir pegar o ônibus, que não sobe devido às festas”, relata. O som, segundo ela, invade até a casa onde reside, mesmo com as janelas fechadas.
Boemia incômoda

A combinação entre vida noturna e áreas residenciais também aparece no Rio Vermelho, terceiro bairro com maior número de denúncias neste ano. Ali, o problema não se restringe aos estabelecimentos comerciais; casas e condomínios residenciais ajudam e muito a elevar os níveis de poluição sonora.
Lucas de Lima, 23 anos, técnico de informática, conta que o som alto de festas e residências se repete praticamente todos os fins de semana e pode avançar pela madrugada. “Parece que o som é para os vizinhos ouvirem, e não para eles.”

Segundo Lima, o ruído chega a atrapalhar atividades simples dentro de casa. “Eu não consigo assistir televisão com volume aceitável. Tenho que colocar bem alto”, relata. Em algumas ocasiões, diz, portas e janelas chegam a tremer com a intensidade do som da vizinhança.

O bairro também registra reclamações relacionadas a obras, com sirenes, falatório e máquinas funcionando desde as primeiras horas da manhã e, em alguns casos, até a noite. Para Lima, porém, o problema é mais intenso nas áreas residenciais. “No final de semana, que é onde tem mais recorrência, eu não consigo ficar em paz”, dispara.

Brotas e Paripe: veterano e novato no Top 5

O incômodo também muda conforme o bairro. Em Brotas, que já ocupou o topo do ranking de poluição sonora de Salvador, os carros de som estão entre os principais motivos de reclamação. Em 2024, o bairro foi o que mais recebeu denúncias do tipo, segundo a Sedur. Dois anos depois, a região continua entre as cinco mais denunciadas da cidade. Para o empresário Marcos Antonio dos Santos, 28 anos, o Alto Saldanha é um dos pontos onde o problema é mais frequente.

“É sempre algo extremamente estressante, mas é principalmente dos carros de som. É um negócio tão complexo que acaba fazendo com que a gente perca a paciência”, afirma. Segundo ele, não existe um horário específico para o problema. O som pode aparecer durante o dia ou à noite e acaba interferindo no sono e na rotina. Marcos também chama atenção para os impactos sobre crianças, idosos e pessoas com deficiência.

Sufoco no Subúrbio

Novato no ranking, Paripe aparece pela primeira vez entre os cinco bairros com mais denúncias de poluição sonora em 2026. Morando na região há apenas 10 meses, a assistente administrativa Iasmin Falck, de 24 anos, já percebeu que o nível de sossego varia conforme o ponto do bairro.

Na rua onde vive, o movimento costuma ser tranquilo, mas a proximidade com uma praça e um bar muda a rotina quando há eventos. O incômodo também aparece dentro do próprio prédio. Segundo Iasmin, uma vizinha organiza semanalmente eventos de uma igreja que podem se estender até perto da meia-noite, com som alto, crianças gritando e jogando bola.

Ela chegou a procurar a proprietária do imóvel para reclamar, mas nunca fez uma denúncia formal à prefeitura. Em julho, uma operação da polícia identificou no bairro três veículos que promoviam som automotivo em desacordo com a legislação vigente. Um veículo foi apreendido e removido após o proprietário abandonar o automóvel ainda conectado à rede elétrica.

Muito além do bairro

Embora festas, bares, boates e paredões apareçam com frequência nos relatos, a poluição sonora não está restrita a um tipo específico de região ou de morador. Para a antropóloga Gilda Conceição, pesquisadora e doutoranda pela Ufba, a ideia de que o excesso de barulho seria uma característica própria do baiano também precisa ser relativizada.
Segundo ela, o perfil alegre e festeiro frequentemente associado à população baiana também está presente em diferentes grupos da sociedade brasileira e não deve ser confundido de forma automática com a produção de ruído. A antropóloga ressalta ainda que o problema não está necessariamente relacionado à classe social ou ao bairro onde ocorre. 

O que diz a legislação

A convivência entre essas diferentes atividades, porém, precisa respeitar os limites estabelecidos pela legislação municipal. Em Salvador, o limite para o barulho muda de acordo com o horário. É permitido até 70 decibéis entre 7h e 22h, enquanto o limite cai para 60 decibéis das 22h às 7h. Para máquinas, motores, compressores e geradores estacionários, a regra é ainda mais restritiva: 55 decibéis durante o dia e 50 à noite. A fiscalização é feita pela Sedur, em parceria com a PM, a Civil e a Transalvador, e  as denúncias podem ser feitas por telefone, através do número 156.