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40 anos sem Mãe Menininha: memorial conta trajetória da ialorixá de forma física e virtual

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40 anos sem Mãe Menininha: memorial conta trajetória da ialorixá de forma física e virtual

Instalado no antigo aposento da lendária ialorixá do Gantois, morta há 40 anos, memorial reúne mais de 500 peças e amplia o acesso ao acervo com tour virtual gratuito

40 anos sem Mãe Menininha: memorial conta trajetória da ialorixá de forma física e virtual

Foto: Fotos por Marcelo Maia

Por: Ismael Encarnação no dia 13 de agosto de 2026 às 08:00

Atualizado: no dia 13 de agosto de 2026 às 08:24

Matéria originalmente publicada no Jornal Metropole na edição do Jornal Metropole do dia 13 de agosto de 2026

Entrar no antigo aposento de Maria Escolástica da Conceição Nazareth, a Mãe Menininha do Gantois, é como encontrar uma mulher que permanece presente mesmo quatro décadas após sua morte, em 13 de agosto de 1986. Entre louças, roupas, joias, fotografias, documentos e objetos ligados ao candomblé, o memorial dedicado à lendária ialorixá preserva mais de 500 peças que ajudam a contar não apenas a trajetória da sacerdotisa, mas também a história da mulher, da liderança política e da comunidade que ela comandou.

Neste mês, quando se completam 40 anos da morte de Mãe Menininha, o espaço ganha ainda mais força. Isso porque já agora incluído no Guia de Museus Baianos, podendo ser visitado virtualmente. Criado em 1992, o Memorial Mãe Menininha está dentro do próprio Terreiro do Gantois, em Salvador, e ocupa o espaço onde a ialorixá viveu.

A experiência, por isso, se aproxima mais de uma visita à casa de alguém do que de um museu tradicional. Segundo Ângela Ferreira, atual presidente da Associação de São Jorge Ebé Oxossi e liderança interina do Gantois, a criação do memorial nasceu do desejo de familiares, filhos do terreiro e amigos de preservar o acervo deixado pela ialorixá.

Peças que falam

O acervo reúne mobiliário, roupas comuns e religiosas, joias, porcelanas, imagens, diplomas, documentos, obras de arte, honrarias e objetos recuperados ao longo do tempo, inclusive em leilões. Entre eles, alguns revelam detalhes da vida pessoal da mãe de santo que ajudam a enxergar a mulher por trás da ialorixá.

Um exemplo são os leques, dos quais Mãe Menininha gostava e que faziam parte de seu cotidiano. O hábito de se abanar aparece de outras formas no próprio acervo, inclusive em elementos expostos no andar superior, aproximando peças de uso pessoal e referências ligadas à religiosidade.

Na parte dedicada às peças dos orixás, há ferramentas pensadas por Mãe Menininha e por outras mulheres do Gantois. Algumas delas guardam formas que lembram abanadores, criando uma ligação curiosa entre um gosto pessoal da ialorixá e elementos concebidos dentro da tradição religiosa. É um detalhe que ajuda a mostrar como, naquele universo, a vida cotidiana e o sagrado faziam parte um do outro. 

Passeios em imagens

As fotografias também aproximam o visitante de uma Mãe Menininha que existia antes da imagem pública consagrada. Ângela Ferreira conta que parte desse registro foi cedida ao memorial pela antropóloga norte-americana Ruth Landes, que conheceu a ialorixá durante sua pesquisa de campo em Salvador, na década de 30.

As imagens mostram Mãe Menininha desde a infância e ajudam a acompanhar diferentes momentos de sua trajetória. A experiência de Landes no Gantois também resultou no livro "A Cidade das Mulheres", obra em que a pesquisadora registra a força das mulheres negras na organização do candomblé e o papel central que elas exerciam nas comunidades de terreiro.

Documentos reforçam papel de liderança

Se os objetos pessoais revelam a mulher, os documentos ajudam a dimensionar a liderança. O acervo preserva registros ligados à organização do Gantois e à atuação de Mãe Menininha na defesa de sua comunidade. Entre eles está a documentação relacionada ao Estatuto da Associação de São Jorge Ebé Oxossi, entidade responsável pela manutenção do terreiro, que teve seu registro cartorial formalizado em 1930, durante a gestão de Mãe Menininha.

A documentação evidencia uma liderança que não se limitava ao espaço religioso, mas buscava criar estruturas para proteger o patrimônio, organizar a comunidade e garantir a continuidade de suas tradições. Essa dimensão política aparece ainda na atuação de Mãe Menininha diante das restrições impostas ao candomblé. Em 1976, ela participou das articulações junto ao governo de Roberto Santos pelo fim das proibições da Delegacia de Jogos e Costumes para a realização de festas com toques rituais.

Liderança matriarcal

O Memorial está inserido em um terreiro que mantém uma tradição matriarcal cuja liderança religiosa é passada de mãe para filha, como mostra a linha sucessória do Gantois: 

Maria Júlia da Conceição Nazareth – 1849 a 1910

Pulchéria Conceição Nazareth – 1910 a 1918

Mãe Menininha do Gantois – 1922 a 1986

Mãe Cleusa Millet – 1989 a 1998

Mãe Carmen Oliveira da Silva – 2002 a 2025

 

 

Memória no digital

A história preservada no Gantois pode ser conhecida agora também pela internet. A inclusão do memorial no Guia de Museus Baianos ampliou a divulgação do espaço e trouxe uma visita virtual que permite percorrer os ambientes. Segundo Rodrigo Negreiros, coordenador técnico da plataforma, o memorial foi mapeado digitalmente e passou a oferecer uma experiência com fotografias, vídeos, narrações e informações sobre os espaços.

O visitante tem a chance de conhecer virtualmente, com circulação em 360 graus, os três núcleos expositivos: o espaço da mulher Maria Escolástica, o espaço da sacerdotisa Mãe Menininha e a ambientação de seu antigo aposento. O guia pode ser acessado gratuitamente em qualquer dispositivo, móvel ou não, sem necessidade de instalar aplicativos, e reúne conteúdos em português, inglês, espanhol e francês.

Para Negreiros, a digitalização ganha significado especial no ano dos 40 anos da morte da ialorixá, pelo impacto da data e porque permite que sua história alcance novas gerações e pessoas que estão fora da Bahia. A proposta, porém, não é substituir a visita presencial. O tour funciona como uma porta de entrada para despertar o interesse pelo Memorial e pelo Gantois.

Serviço

O quê: Memorial Mãe Menininha do Gantois
Quando: De terça a sexta-feira, das 14h às 17h; sábado, das 9h às 12h
Quanto: Entrada gratuita. Grupos podem ser agendados previamente pelo
e-mail: memorialmaemenininha@gmail.com

Tour virtual: guiademuseus.com.br/gantois