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Quem maquia os mortos? Conheça os bastidores do trabalho dos necromaquiadores de Salvador
Com humor para encarar o preconceito das ruas e respeito absoluto na bancada, necromaquiadores revelam os bastidores de um ofício onde o cliente nunca reclama, mas a exigência é máxima

Foto: Imagem gerada com auxílio de IA
Matéria originalmente publicada no Jornal da Metropole na edição de 20 de agosto de 2026
Se os maquiadores tradicionais precisam lidar com clientes exigentes e prazos apertados, existe uma categoria que trabalha com o exato oposto: uma clientela silenciosa, que não reclama do tom do batom nem apressa o serviço. Longe de ser um trabalho pacato, os necromaquiadores, os maquiadores de mortos, preparam quem já partiu mantendo um equilíbrio fino entre estômago firme, técnica apurada e uma dose cavalar de sensibilidade.
Ao entrar no laboratório de tanatopraxia, nome que se dá ao conjunto de técnicas usadas para preparar e conservar temporariamente corpos de pessoas falecidas, o cenário quebra qualquer expectativa. Em meio aos frascos de fluidos de conservação e equipamentos sanitários, repousa um arsenal inesperado: pincéis de diferentes tamanhos, paletas de sombras, bases de alta cobertura e pigmentos de variados tons.
É a vida real imitando a ficção — aquela mesma que Miguel Falabella satirizou em Pé na Cova com a inesquecível maquiadora de cadáveres vivida por Marília Pêra. Mas sem os exageros da TV e longe do estresse do mundo dos vivos, o trabalho na bancada segue um ritmo muito mais sereno e concentrado.
Paz no laboratório
Quem trocou a correria do mercado convencional pela área mortuária garante que a mudança trouxe, acima de tudo, sossego. Após anos lidando com a pressão constante no setor de vendas, o tanatopraxista e necromaquiador Júnior Mendonça, de 44 anos, encontrou nos bastidores das funerárias um ambiente de respeito e silêncio — embora com um grau de exigência técnica e moral incomparavelmente maior.
"Já estava exausto do estresse de lidar com os vivos. Vim para essa área porque os mortos são silenciosos. Eles são mais tranquilos de trabalhar, mas exigem de nós um comprometimento e uma responsabilidade imensamente maiores", reflete Mendonça, que atua na profissão há dois anos.
Alisson Carvalho, de 37 anos, enfermeiro, perito cadavérico e professor do curso de Ciências Mortuárias no CNI - Centro Profissionalizante, conta que a vocação nasceu do desejo de continuar cuidando mesmo após a morte. "Eu olhava para um corpo e dizia: eu tenho que cuidar também. Não é porque evoluiu a óbito que não vou cuidar mais. Desde pequeno minha mãe me procurava e eu estava brincando no cemitério", lembra.
Horror à primeira vista
Apesar de o ganha-pão ser legítimo, encarar o mundo dos vivos usando o uniforme da firma dos mortos é um teste de fogo. O simples ato de voltar para casa e esquecer de tirar a farda do laboratório costuma gerar um burburinho imediato: o povo se benze, arregala os olhos e abre espaço como quem vê um fantasma em plena luz do dia.
"É uma profissão que todo mundo acha que vive na penumbra. Eu estava sentado no metrô e a pessoa olhou o bordado do meu peito. Quando ela leu o que estava escrito, abriu aquela clareira — pelo menos eu fui sentado", diverte-se Júnior Mendonça.
Alisson concorda e lembra que o baiano — e o brasileiro em geral — tem um pavor quase genético de qualquer coisa que cheire a velório. "Quando digo que sou perito cadavérico ou tanatopraxista, ninguém entende nada. Mas quando menciono o IML, a pessoa dá aquele pulo para trás e manda um 'menino, você nem parece!'. Como se quem trabalha com isso tivesse que andar por aí de capa preta e cara de gótico", brinca.
‘Seus mortinhos’
Para evitar o pânico e amaciar a crueza do ofício, a saída é adaptar o vocabulário. Em casa, a palavra "cadáver" dá lugar a eufemismos para amenizar o peso do assunto, embora as crianças nem sempre acertem de primeira. Mendonça conta que o filho caçula, curioso que só, quis saber como tinham sido os atendimentos do dia, perguntando como estavam os "seus mortinhos".
Tanatopraxista e agente funerária há três anos, Jucy Brito destaca que a reação de quem descobre a profissão é sempre um misto de queixo caído e perguntas indiscretas. Já Daniele Pereira, profissional da clínica D’Flores e Ornamentação, deu sorte: cresceu vendo a família tocar funerária e já estava vacinada contra o espanto. Ainda assim, confessa que a experiência não impediu o estômago de dar aquele nó no primeiro dia que encarou a mesa de preparo.

Tanatopraxista e agente funerária Jucy Brito. Foto: Raiane Alves
Papo de bancada
Distante do gélido imaginário popular, a sala de preparo abriga rituais próprios de afeto. Na bancada, os profissionais combinam itens do cotidiano — como batons e bases de acabamento fosco para evitar brilho excessivo — e produtos químicos pesados de uso exclusivo no pós-morte, essenciais para neutralizar hematomas e lesões severas.
A maquiagem, porém, é só metade do trabalho. A outra parte envolve uma conversa onde só um lado usa a voz, mas o outro, garantem eles, responde do seu jeito. "A gente conversa com eles, chama pelo nome e diz: 'Olha, colabora, queremos te devolver para sua família o mais lindo possível'. Às vezes há uma rigidez na mão que não cede de jeito nenhum; a gente troca duas palavras com o corpo, vai massageando e, pode ter certeza, a articulação solta", revela Silvana Passos, de 39 anos, profissional da Tanatocs Clinic Bahia.

Tanatopraxistas e necromaquiadores Silvana Passos e Júnior Mendonça. Foto: Thaissa Oliveira
Daniele Pedreira desmistifica a cena para quem acha que se trata de filme de terror: os eventuais ruídos que ecoam na sala nada mais são do que liberações físicas de gases do próprio organismo. Ainda assim, a conversa ao pé do ouvido permanece. Para os profissionais, esse bate-papo é o que garante a leveza do processo e devolve a serenidade à feição de quem partiu.
Profissão é teste para cardíaco
Trabalhar no ramo também rende causos de fazer o coração saltar pela boca. Alisson Carvalho lembra do seu segundo serviço na necromaquiagem. Ele estava ali, compenetrado, quase colado no pescoço do falecido para fazer uma restauração delicada, quando a biologia resolveu pregar uma peça daquelas.
"O corpo teve um espasmo cadavérico, que é aquela contração muscular involuntária pós-morte. Como eu estava inclinado bem em cima dele, o braço subiu de vez e ele me deu meio que um abraço. Acho que minha alma saiu do corpo por uns três segundos e depois voltou", conta.

Professor de ciências mortuárias Alisson Carvalho Foto: Thaissa Oliveira
Mas nem só de sustos involuntários e correção de palidez vive o laboratório. A profissão também exige uma veia artística de primeira linha. Alisson também lembra quando recebeu a missão de preparar uma drag queen para o seu último ato. A pedido da família, o funeral virou uma celebração de identidade. Com contorno marcante e olhão esfumado, o trabalho garantiu que ela se despedisse exatamente como brilhou em vida
Regra sagrada
Se na maquiagem social o cliente comanda, na necromaquiagem a regra sagrada é outra: o desejo da família é preservado. Se a foto enviada pelos parentes mostra a avó com seu inseparável batom vermelho, é exatamente esse tom que vai para a bancada. Por outro lado, se o pedido for a discrição absoluta, assim será feito.
Para a tanatopraxista Jucy Brito, é nesse momento que a técnica cede lugar ao acolhimento. "Quando a gente consegue entregar o ente querido do jeito que eles se lembravam em vida, com aquela expressão tranquila, sentimos que devolvemos um pouco de conforto no pior dia para daquelas pessoas", finaliza.
Quer entrar para a turma?
Primeiro do estado a oferecer formação 100% presencial na área, o curso de Ciências Mortuárias do CNI - Centro Profissionalizante reúne estudantes de Salvador, do interior baiano e de estados vizinhos. Ao longo de 12 meses de formação, a matriz curricular engloba necromaquiagem, reconstituição facial, perícia cadavérica e papiloscopia (estudos as digitais), combinando nove meses de aulas teóricas e práticas em laboratório com três meses finais dedicados ao estágio supervisionado.
Para testar a vocação logo no início e evitar desistências pelo choque de realidade, a instituição promove visitas guiadas a cemitérios e clínicas de preparo nos primeiros meses de curso. A oferta atende a diferentes rotinas, com opções de turmas semanais ou quinzenais com aulas durante a semana, aos sábados ou aos domingos.
Saiba mais pelo sobre o curso pelo telefone (71) 3017-5757 ou acesse https://cnicursos.com.br/.
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