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Em resposta a provocação de MK, João Carlos Salles aborda a facilidade com a qual o fascismo atrai as massas e as elites

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Em resposta a provocação de MK, João Carlos Salles aborda a facilidade com a qual o fascismo atrai as massas e as elites

O fascismo exerce um fascínio insidioso sobre as massas que vitima, mas também sobre as elites que alimenta ou constrói; para Mário Kertész, amigo que, no ar, me provocou o tema

Em resposta a provocação de MK, João Carlos Salles aborda a facilidade com a qual o fascismo atrai as massas e as elites

Foto: Reprodução

Por: João Carlos Salles no dia 19 de outubro de 2026 às 16:01

Atualizado: no dia 19 de outubro de 2026 às 16:43

O fascismo exerce um fascínio insidioso sobre as massas que vitima, mas também sobre as elites que alimenta ou constrói. Por abjeto que o seja, não é um inimigo fácil. Pensamos vê-lo derrotado, exibimos suas mazelas, e eis que ele teima em ressurgir com força como uma solução simples e falsa para problemas complexos e muito verdadeiros — problemas que ele torna ainda mais graves. É um enigma assustador e, mais uma vez, urgente, a desafiar teóricos e militantes. 

Em agosto de 1935, Georgi Dimitrov apresentou seu célebre informe sobre o sentido da ofensiva fascista e as tarefas da classe trabalhadora. Outro o tempo, outra a realidade, diverso até o lugar da classe operária, mas persistentes alguns traços do fascismo. Em particular, sua capacidade de fascinar os que estão destinados a ser coletivamente suas vítimas, ao tempo que podem, distributivamente, ser nossos algozes.

O fascismo fascina. Esse um dos seus traços perenes. Ele parece carregado de vitalidade. Se preferirem, de virilidade. Por isso, apresenta-se em momentos de crise como um caminho para o capitalismo, quando este já não consegue “manter sua ditadura sobre as massas com os antigos métodos da democracia burguesa e do parlamentarismo”.

A dominação política exibiria com o fascismo as suas entranhas, de sorte que sua brutalidade, longe de excepcional, seria seu caráter verdadeiro. Explícito e dissimulado, justificar-se-ia quando escassas as justificativas, como uma espécie de demagogia social, que comporta “a possibilidade de arrastar consigo as massas da pequena burguesia desajustadas pela crise, e até de alguns setores das camadas mais atrasadas do proletariado que jamais seguiriam o fascismo se tivessem compreendido seu verdadeiro caráter de classe, sua verdadeira natureza”.

Duas questões se colocam naturalmente. Como pode nos fascinar nosso potencial inimigo? Também, qual a verdadeira natureza de classe do fascismo? A última questão parece a Dimitrov quase trivial. O fascismo implica a substituição de uma forma estatal de dominação, a democracia burguesa, por uma ditadura terrorista declarada. Mais precisamente, seria a quintessência do poder do próprio capital financeiro. 

Ora, em sendo assim, se esta, com sua crueza, é a resposta à segunda questão, o que pode responder à primeira? Como essa forma insípida de puro poder pode exercer algum fascínio? Em suma, “de onde nasce a influência do fascismo sobre as massas?” A resposta de Dimitrov é direta: 

O fascismo consegue atrair para si as massas, porque apela de forma demagógica para suas necessidades e exigências mais candentes. O fascismo não só instiga os preconceitos profundamente arraigados nas massas, como especula também com os melhores sentimentos destas, com sua sede de justiça e, às vezes, até com suas tradições revolucionárias. 

O fascismo conquista, portanto. Mais que dominar, é capaz de seduzir. Oferece doces e promessas, antes de conduzir a prisões ou campos de concentração. Ele pode lançar “as palavras de ordem mais sedutoras em determinado momento para as massas que não alcançaram a maturidade política”; em geral, prometendo liberdade ao preço da retirada de direitos. 

A virilidade que o fascismo ostenta, ao atentar contra direitos, mostra-se uma forma de impotência, a saber, a incapacidade de dialogar com o outro, de lhe fazer frente, com ou sem razão. É típica sua recusa da construção de solos comuns e, não por acaso, é visceralmente inimigo de uma democracia que seja mesmo radical, enquanto pode se tornar a face explícita do encobrimento de direitos que subjaz à justificação da mera democracia burguesa. A realidade nele se apresenta nua e crua, mas como que em um espelho distorcido:

O fascismo entrega o povo à voracidade dos elementos mais corrompidos e venais, mas apresenta-se diante dele com a reivindicação de um “governo honrado e insubornável”. Especulando com a profunda desilusão das massas em relação aos governos da democracia burguesa, o fascismo se indigna hipocritamente em face da corrupção.

Eis um traço que conhecemos bem, e ele beira o paradoxo. Sua personagem prototípica é o político que desdenha da política e, por isso, quer o benefício de toda indignação (amiúde justa) com os políticos. O fascismo leva essa ambiguidade ao paroxismo. Logo, mesmo as palavras mais elevadas são esvaziadas de sentido, podendo o discurso afirmar ora um aspecto, ora sua negação, sendo difícil de agarrar um discurso que pode enunciar com força uma proposição e, em segundos, de forma ainda mais contundente, pode brandir a sua contrária.

Um discurso sobre a liberdade é vazio, caso redunde na supressão de direitos, proteções, prerrogativas. São seduzidos, porém, aqueles que se desejam livres por não terem mais qualquer proteção e se sentem protegidos porque confiantes em uma fúria que os faria sobreviver em meio ao caos e à insegurança. Em meio ao desespero, suscita a promessa de que alguns eleitos merecem os postos mais elevados e a salvação, ao preço da indiferença pelo destino do outro, da outra pessoa, da outra raça, do outro povo.

A contradição, porém, não está apenas no nível do discurso — algo que uma análise teórica interna seria suficiente para desvelar. A história mostra a contraposição entre discurso e realidade, que o fascismo absorve embora, como se não houvesse contradição alguma. Fazendo o diagnóstico daquela época, Dimitrov decanta um enigma que ainda nos assusta. Uma espécie tosca de servidão voluntária se adensa, fazendo com que a afirmação apolínea da vontade justifique uma servidão nada dionisíaca. 

Dimitrov desenha assim o descompasso entre promessa e realidade. Para a juventude, a promessa de um porvir esplendoroso trouxe, na realidade, “dispensa em massa das fábricas, campos de trabalho e exercícios militares incessantes, visando a uma guerra de rapina”.6 Para os modestos funcionários, para os intelectuais (e como esses se iludem com facilidade!), a promessa de acabar com as corporações e a burocracia se transfigura na criação de uma nova burocracia, semeando “em proporções nunca vistas a corrupção e a decomposição”. Aos camponeses depauperados, a promessa de acabar com a vassalagem das dívidas entrega-lhes a uma escravidão sem precedentes e aumenta “até o indizível a exploração das grandes massas camponesas pelos grandes agricultores, os bancos e os usurários”.

Essa diferença tão tangível entre promessa e realidade não deveria abolir toda capacidade de sedução? Ora, ao que parece, essa distância faz parte da força da retórica fascista, sempre trabalhando em um descompasso, em relação ao qual toda informação é impotente e em cuja função todo desejo pulsa, alimentando seu mito e ilusão. E, enfim, é talvez de mito que se trate, de uma política que desdenha o real e se consolida pela manipulação da própria vontade de poder.

O desenho do mito (no caso, uma distorção constitutiva, capaz embora de organizar a experiência da vontade política) talvez nos aproxime mais de quanto pode operar como fascinante a degradante experiência do fascismo como uma força política sempre atual. Que o fascismo esteja embebido de pulsões da guerra, do método alexandrino de resolução pela força, de golpes que rompem os nós que não se dispõe a desatar, isso pode parecer um tanto óbvio. Entretanto, aumenta a estranheza de haver fascínio no ambiente “civilizado” da produção acadêmica, no qual a carência eventual de vitalidade estaria mais do que satisfeita pela força da palavra e deslizaria pelo traçado sinuoso do lógos.

Não precisamos sequer fazer menção a nomes como o de Martin Heidegger ou de Mircea Eliade. Podemos evitar suas deploráveis e historicamente inconsistentes justificativas de adesão, como as que imaginaram o nazismo capaz de se contrapor à dissolução de alguma essência europeia, infundindo energia simbólica a um niilismo cultural.9 Longe de qualquer esforço de justificação, basta-nos lembrar um caso, o do genial Gottlob Frege, um pensador cuja obra está para lógica contemporânea como a de Aristóteles esteve para a lógica clássica, que se deixou seduzir, do modo mais primário, pelo discurso nazista. 

Michael Dummett, seu mais devotado leitor, nos dá seu testemunho de quão chocado ficara ao ler o diário de Frege, a cuja obra dedicara tantos anos de sua vida e que reverenciava como um indivíduo absolutamente racional: 

O diário revela Frege como um homem de opiniões políticas de extrema-direita, ferrenhamente contrário ao sistema parlamentar, a democratas, liberais, católicos, franceses e, sobretudo, aos judeus — os quais, em sua visão, deveriam ser privados de direitos políticos e, preferencialmente, expulsos da Alemanha.

Ora, trata-se exatamente dessa obviedade, a existência de uma cisão na qual o fascismo opera. Não há contradição entre sofisticação técnica e grande inteligência, por um lado, e uma queda ideológica e até um fascínio pela pura e simples degradação cultural. Esse documento do diário de Frege (que, aliás, fora supresso da edição de seu espólio) é dos mais ilustrativos da condição humana. “Com esse documento — afirma Dummett —, aprendi algo sobre os seres humanos que eu lamentaria não saber; talvez também algo sobre a Europa.” Ensina-nos algo, portanto, o mistério de uma cisão que pervade a humanidade inteira, para cuja compreensão a lógica talvez tenha oferecido a Dummett bem menos respostas do que as cartas do tarot.

A lição é simples. Esse escândalo que outrora vimos na sociedade em seu conjunto (e que se repete) pode bem instalar-se no âmago de cada indivíduo. Neste sentido, não são seduzidas apenas as massas, mas também suas supostas elites, não havendo cura para essa tentação pela introdução pura e simples de mais informações ou pelo recurso idólatra à ciência, incapaz de nos oferecer por si uma suficiente blindagem subjetiva.

O lugar retórico do fascismo seria talvez a redoma característica do mito, retomando aqui lições de Ernst Cassirer — em especial, no capítulo “A técnica dos mitos políticos modernos”, de seu livro O Mito do Estado, redigido em 1945.12 Também Cassirer ajuda-nos a entender o fato do fascismo, mesmo que não concordemos com sua explicação desse fato. Nosso interesse, porém, está mais em detectar quão facilmente pôde e pode esse fenômeno capturar massas e atrair ou formar certas elites, pois está em seu âmago a promessa de ser elite, ou seja, a invenção de diferenças que permitiriam o exercício de prerrogativas nobiliárquicas, seja como direito a alguma pretensa superioridade, seja pela pretensão de que a liberdade individual se justifica sem qualquer considerando e à revelia do outro.

Podemos imaginar cada armação teórica como uma explicação insuficiente, inclusive a de Cassirer, mas as melhores nos deixam entrever algum aspecto substantivo ou saliente desse fenômeno. Imaginar, ao contrário, que algum aspecto seja capaz de explicar tudo seria aceitar uma má abstração, como quando se tenta uma explicação psicológica para um fenômeno da política. 

Tinha boas razões Poulantzas, em suas reflexões sobre o impacto popular do fascismo, ao reagir a reduções do fenômeno complexo do fascismo a alguma explicação psicológica.13 Uma explicação psicológica pouco diria acerca de suas condições materiais as mais concretas ou de sua natureza de classe, cujo desvelamento poderia indicar que, ao fim e ao cabo, o estado liberal e o estado fascista não se distinguiriam em essência. De todo modo, mesmo uma boa redução sociológica ou econômica poderia se tornar uma má abstração, incapaz de capturar o fenômeno, enquanto, por outro lado, cada fragmento abstrato pode nos desvelar algo de sua força estranha. 

Em Cassirer, enfatiza-se o aspecto do recurso ao mito, compreendido como tentativa humana de preencher um vazio deixado pela explicação racional. O recurso ao mito remontaria à mais banal das ações, que pode conviver com soluções técnicas e até ser complementar ao próprio discurso racional. O mito não desponta apenas perante o surgimento de personagens messiânicas, líderes carismáticos ou chefes de partido, mas amiúde envolve pessoas as mais comuns — aquelas mais semelhantes a nós mesmos, disciplinados que somos por uma rotina que, com mais ou menos competência, segue seu curso inexorável.

O que espantou especialmente a Cassirer foi perceber uma nova técnica da política, reeditando no presente mitos os mais primevos, como se, com novos expedientes, o fascismo reeditasse o procedimento de oferecer justificativas aparentemente racionais e sobretudo respostas diretas para o que escapa a qualquer racionalidade e beira o absurdo. Ou seja, o fascismo comportaria alguma teoria que promete “uma justificação racional para certas concepções que, na sua origem e tendência, eram tudo menos racionais”. Nesse movimento, não estaria mais o inimigo em um recanto distante e exótico; passava a estar bem próximo, na sala ao lado, no escritório comum. Não seria um estranho, mas alguém que pode conosco celebrar aniversários, estar nas mesmas palestras, trabalhar nos mesmos prédios. Podemos até ser colegas de departamento.

Nessa proximidade distante, já não se valeria apenas da agressão explícita, mas sim da mais bem cultivada ironia. O fascista pode, sim, ser um colega bem cultivado, sem ser ele verdadeiramente culto. Pensar, então, o fascismo, procurar entender o fascismo implica aceitar uma desconcertante proximidade do mal. O fascismo tem esse traço perene da produção sistemática de diferenças irredutíveis, mesmo quando encobertas por práticas comuns e rotineiras. Ele funciona comprometendo a possibilidade de conciliações, inclusive as mais tensas, de acordos e desacordos qualificados e, por isso, torna-se incapaz de estabelecer pontes até entre os mais próximos.

Premonitoriamente, Cassirer identifica um novo traço do mito, sua possível fabricação artificial, algo que parece cair como uma luva como descrição da produção de celebridades nas redes sociais: “A partir de agora, os mitos podem ser fabricados no mesmo sentido e de acordo com os mesmos métodos utilizados no fabrico das outras armas — as metralhadoras e os aviões”.15 Esse fato novo muda tudo, já reconhecendo Cassirer esse rearmamento beligerante até em mudanças introduzidas na própria língua — o que parece sugerir a um só tempo o esvaziamento e a ressignificação fluida de conceitos antes capazes de dar liga ao tecido social.

Um novo tecido retórico reconstruía a organização da experiência no universo do nazismo hitlerista. Cassirer dá como exemplo a sutil e quase imperceptível diferença entre Siegfriede e Siegerfriede, por meio da qual, entretanto, na nova retórica, a paz ofensiva seria a que acaso não fosse o resultado de uma vitória alemã. A arma política do linguajar fascistóide imantava assim o mais racional discurso de uma gama superlativa de emoções, exigindo posicionamento no que antes poderia servir a um diálogo. 
Em suma, a retórica fascista é uma arte de alimentar o desacordo permanente, da beligerância permanente, até mesmo na mais corriqueira descrição da experiência humana: “Se ouvirmos essas novas palavras, descobriremos nelas toda a gama das emoções humanas — ódio, cólera, fúria, altivez, desprezo, arrogância e desdém”.

Não é difícil ver uma semelhança de família entre esse espírito da propaganda nazista e o modo com que se reveste a atual discussão nas redes sociais, a consolidação de desacordos que se aprofundam mais e mais, a exemplo da anatematização de coletivos, por meio da qual o comportamento do outro, do diferente, passa a ser lido segundo algum código penal orientado para a classificação de delitos e inimigos. A taxonomia deixa de ser recurso de análise e passa a ser arma de guerra.

O mais assustador da análise de Cassirer, agora que nos debruçamos brevemente sobre o fascínio do fascismo, é perceber como a própria educação formal pode estar indefesa e ser a mais impotente, caso engolfada por esse modo de descrever a experiência. Também o homem educado, “quando exposto às mesmas forças, pode facilmente ser reduzido a um estado de aquiescência. Perde a curiosidade; aceita as coisas como se lhes apresentam.”

O fascínio da inação pode se tornar raiva ativista; a cumplicidade da indiferença em relação ao destino do outro pode tornar o homem comum, qualquer o seu status, em um cúmplice da violência e, muita vez, em um direto agente destruidor. Cassirer faz uma analogia com os companheiros de Ulisses transformados em animais:

Mas aqui são homens, homens de educação e inteligência, honestos e decentes, que subitamente renunciam ao mais alto privilégio humano. Deixaram de ser agentes pessoais e livres. Realizando os mesmos mitos, começam a sentir, a pensar e a falar da mesma forma. Os seus gestos são vivos e violentos; contudo, isso não passa de uma vida artificial.

Podem alguns duvidar que essa renuncia à subjetividade de sujeitos derramados no espaço político e agora nas redes sociais possa ser descrita como uma vida artificial. Afinal de contas, indivíduos que antes em nada viviam para a política parecem ter saído do território da mera responsabilidade com a lida da vida (desemprego ou eleições, como alguns descreveram) para o suposto exercício de uma liberdade, instalada esta não se sabe onde. Agem como se a liberdade não fosse, como insiste Cassirer com sofisticação e sabedoria, uma tarefa coletiva e não um dado prévio à vida social.

Em nome de uma liberdade presuntiva, o fascismo parece desobrigar amplas camadas do verdadeiro exercício da liberdade. Afinal, não sendo a liberdade uma promessa inata, “para possuí-la temos de criá-la”.19 Se quisermos resistir, então, ao fascínio fácil do fascismo, precisamos afastar a retórica que nos obvia a realização de nossa mais persistente tarefa, qual seja, “uma participação ativa na construção e reconstrução cultural do homem”.

Tinha deixado de lado os muitos textos sobre o fascismo que compulsara durante os governos Temer e Bolsonaro. O resultado das urnas obrigou-nos a reler alguns trechos, muito rapidamente, indagando então como é possível que ainda fascine tantos brasileiros, uma vez que, muito recentemente, um obscurantismo absurdo nos legou um rastro nítido de irresponsabilidade, violência e morte.

As respostas são diversas. Cada uma delas, insuficiente; porém, todas elas juntas nos permitem imaginar um sentido, organizar uma experiência na qual podemos construir possibilidades autênticas de diálogo. Todas as respostas enfrentam, todavia, esse grande mistério, com o qual nos deparamos a todo instante, o da impotência dos discursos, da inanição da palavra, mesmo em seu território mais sagrado. 
Todas as respostas se confrontam com a possível escolha da humanidade pela barbárie, como se decididas as pessoas à pressa, às respostas rápidas, a abandonarem os outros à própria sorte ou mesmo, em casos extremos, a usarem os corpos alheios como um meio, quando é definidor da condição humana ser um fim comum para todos nós e nunca um mero instrumento.

Qualquer nossa leitura, não podemos deixar de nos aliar ao sentimento de Cassirer quando advoga uma filosofia que não renuncie a seus próprios ideais éticos e teóricos fundamentais. Mesmo se não aceitarmos de todo sua leitura, vale aqui concluir com a citação longa de um trecho desse escrito composto no exílio, em 1945 — trecho que nos surpreende pela atualidade de seu alerta ao fascínio amiúde exercido pelo fascismo e por outras manifestações obscurantistas assemelhadas. 

Ao nos desenhar bem os limites e a necessidade renovada do bom trabalho da filosofia, indicando estar além de seu poder destruir os mitos políticos, exatamente por eles se revestirem de uma redoma impenetrável aos argumentos racionais, não podendo, pois, ser refutado por silogismos, Cassirer resgata uma tarefa da filosofia, a de fazer-nos compreender o adversário. Neste caso, essa compreensão nos obriga a aceitar que esse inimigo enigmático tem também sua força, que não pode ser reduzida a seus efeitos e fraquezas:

Todos nós menosprezamos essa força. Quando ouvimos pela primeira vez falar de mitos políticos achamo-los tão absurdos е incongruentes, tão fantásticos e idiotas, que dificilmente os tomaríamos a sério. Mas agora todos nós reconhecemos que cometíamos um erro. Não devemos repeti-lo. Devemos estudar cuidadosamente a origem, a estrutura, os métodos e a técnica dos mitos políticos. Devemos olhar o adversário bem de frente a fim de saber como derrotá-lo.

O absurdo bastante tangível dessas formas múltiplas de obscurantismo (que, no Brasil, chegou ao questionamento da esfericidade da Terra ou à rejeição das vacinas) não parece suprimir sua capacidade de galvanizar os traços conservadores de nossas sociedades e de inclusive obter vitórias eleitorais. O acesso fácil à informação, que não nos falta e também nos socorre, não serve para lhe quebrar um fascínio, mesmo quando assume a figura tosca de indivíduos que elogiam ditadores e condecoram milicianos.

Sem esgotar as explicações, importa manter a guarda, insistir que a tarefa, sempre concreta, nunca está completa e que fascismo, enfim, continua sendo um enigma a ser decifrado. Seu fascínio é fácil, ademais, porque se entranha em nós, embebido que está do legado conservador e autoritário da história brasileira, estando próximo demais de nossas vidas e muito distante de nossos valores. É preciso, então, dia a dia, em atos e elucubrações, desatar-lhe internamente os nós, acompanhar sua trama conceitual e, onde quer que se esconda, dissolver seu amálgama de conceitos esvaziados e paixões tristes.