Política

'Cultura machista autoriza homens a abusarem de mulheres', diz jornalista em livro

Ana Paula Araújo escreve sobre machismo e abusos sexuais cometidos por homens e relata experiência da campanha #MeToo

['Cultura machista autoriza homens a abusarem de mulheres', diz jornalista em livro]
Foto : Reprodução/TV Globo

Por Matheus Simoni no dia 21 de Outubro de 2020 ⋅ 12:30

A jornalista, apresentadora da Rede Globo e escritora Ana Paula Araújo lançou o livro 'Abuso: a cultura do estupro no Brasil' e tratou sobre o tema relacionado à agressão sofrida por mulheres e como a sociedade enxerga a vítima que é abusada. Em entrevista a Mário Kertész hoje (21), durante o Jornal da Metrópole no Ar da Rádio Metrópole, ela afirmou que o livro se inspira em movimentos como o #MeToo, uma campanha que se multiplicou entre as atrizes de Hollywood contra a cultura de assédio sexual no cenário do cinema mundial.

"É o que eu tenho escutado constantemente de amigas, pessoas na rua e em contato com as redes sociais. Toda mulher tem alguma história de abuso sexual para contar. O nome desse movimento é muito perfeito, seja entre abusos menores ou maiores, ou em situação muito traumáticas, seja em violências menos traumáticas", afirmou a comunicadora. 

Ana Paula também narra um episódio abuso sofrido por ela e a intenção de retratar a situação no livro. Segundo ela, a situação não é exclusiva e que mulheres são violentadas diariamente em todo o país. "Eu conto esse caso e sempre foi uma questão muito delicada para mim decidir até onde contar e o que contar. Já sou uma pessoa pública, seria me expor muito e eu não queria que o livro fosse sobre mim, mas também não queria que as pessoas achassem que eu não sei do que eu estou falando", disse.

"Então eu contei esse episódio que aconteceu comigo, quando eu tinha 18 anos, voltando da faculdade. Sentei no ônibus muito cansada, era tarde da noite e acordei com um sujeito com a mão em minha coxa, olhando para mim e muito próximo. Fiquei apavorada e vi que no ônibus ninguém fazia nada. As pessoas seguiam viagem como se nada tivesse acontecendo. Consegui, com um fio de voz, pedir para ele tirar a mão de mim e sair do meu lado. Acho que ele não esperava a reação. Levantou, saiu, mas ficou me encarando a viagem inteira", narra.

Ela também contou a experiência de visitar presídios e entrevistar detentos condenados por estupro e abuso sexual. Na avaliação dela, muitos deles sequer apresentam motivos para cometimento do crime. "Por mais que eu tenha sido bem acolhida por diretores, funcionários e agentes penitenciários, o ambiente é muito pesado e difícil de entrar. Por mais que você, como jornalista, tente se manter imparcial, não tem como não sentir revolta ou raiva desses relatos. Eu fui atrás desses criminosos porque, como jornalista, você tem essa mania que acho saudável, que é ouvir todos os lados da versão, e fui tentar entender o porquê. Eu digo no livro, estupro não tem a ver com sexo. Sexo não é difícil de conseguir. Mas é uma relação de poder, de querer dominar e vítima e subjugar. Fui ouvir os criminosos sobre o porquê, mas poucos têm a clareza do porquê de cometer esse crime. Apenas falam que têm vontade", afirmou a jornalista. 

"O que eu concluí é que nossa cultura é tão machista que autoriza esses homens a abusarem de mulheres e, muitas vezes, de crianças, simplesmente porque eles sentem vontade, querem e não vão ter uma condenação tão forte da sociedade", acrescentou.

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