Segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Crianças mortas, passarinhos e traficantes  

Os executores do tribunal do tráfico ‘exageraram’ na sessão de de tortura, e o primeiro menino não resistiu. Assim, chegou-se ao ponto de não-retorno no mundo do crime: os dois meninos vivos não poderiam mais ser libertados, não poderiam sair vivos da cena do julgamento físico, pois contariam tudo

Crianças mortas, passarinhos e traficantes  

Foto: Reprodução Jornal da Metropole

Por: Malu Fontes no dia 16 de dezembro de 2021 às 15:44

Um ano após o desaparecimento de três meninos em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, a polícia do Rio de Janeiro desvendou o caso. Sob as ordens de um traficante da região, os três garotos foram assassinados. Um foi espancado e torturado até a morte. Os outros dois foram executados após a morte “incidental” do primeiro. O primeiro teria morrido por acidente, por ‘errarem na mão’. Os dois, como queima de arquivo, eliminação de testemunhas.

No Brasil de dezembro de 2020, três crianças - Lucas Matheus, 9 anos, Alexandre Silva, 11 anos, e Fernando Henrique, 12 - foram acusadas pelo tio de um traficante de terem furtado dois passarinhos em duas gaiolas. A família dos meninos refuta a acusação, e não há registro dos meninos com os passarinhos nas imagens de câmeras que mostram os últimos instantes em que foram vistos na rua, em direção a uma feira. Chamado pelo tio para tomar uma providência, um traficante do bairro convocou um bando de soldados do tráfico para castigar fisicamente as crianças, pelo suposto furto. 

Os executores do tribunal do tráfico ‘exageraram’ na sessão de de tortura, e o primeiro menino não resistiu. Assim, chegou-se ao ponto de não-retorno no mundo do crime: os dois meninos vivos não poderiam mais ser libertados, não poderiam sair vivos da cena do julgamento físico, pois contariam tudo. Foram executados e, na linha de montagem do crime, chamaram uma tal de Tia Paula, cujo cargo era o de ‘gerente de cargas’ da facção. Outro bando de tarefeiros jogou os três corpos num rio das imediações. Nunca foram achados. 

PAI PRESO

Os tribunais do tráfico não são novidade e fazem vítimas anônimas todos os dias, em dezenas de capitais brasileiras. O que torna este caso ainda mais inacreditável, para além do fato de três crianças serem assassinadas por suspeita de furto de dois passarinhos, são os detalhes do desfecho. O caso só foi desvendado porque as mães e as famílias das crianças não desistiram da busca nem por um dia e conseguiram mobilizar pessoas influentes, artistas e comunidades internacionais ligadas à defesa da infância. E o que foi decisivo para a prisão dos diretamente envolvidos foi o mesmo tribunal do tráfico. 

A prisão de 30 pessoas, há uma semana, foi consequência de ordens da hierarquia mais alta da facção à qual pertencia o mandante da tortura e execução dos meninos. Pistas começaram a aparecer por conta do descontentamento de lideranças, permitindo que só então a inteligência da polícia as reunisse. O líder do comércio de drogas da região ficou furioso porque as investigações sobre o desaparecimento das crianças estavam atraindo a polícia para o bairro e deu ordens para a execução dos envolvidos na morte dos meninos. Após algumas mortes, o mandante, com medo de ser executado também pelo tribunal do qual faz parte, se entregou à polícia. Dizem que, mesmo preso, não sobreviverá.

O resto é o resto, mas tem mais. O pai de um dos meninos foi preso recentemente. Para vingar a morte do filho, procurou ajuda da facção rival à dos executores dos meninos. Teve os planos descobertos e foi pego pela polícia. Dos passarinhos? Nunca mais se ouviu falar. De crianças mortas nos trituradores da violência brasileira, todos os dias se fala, sem que nada mude para protegê-las.

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