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Fujam que os debates chegaram

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[Fujam que os debates chegaram]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 01 de Outubro de 2020 ⋅ 09:27

Na última terça, quem ainda tinha um resto de curiosidade por debate eleitoral na televisão viu o que nos espera do formato, no presente e no futuro. Como não há perspectiva dos debates se reinventarem, o cenário previsto é o de que só marqueteiros continuem vendo aquilo. E jornalistas de política, por obrigação profissional. 

O primeiro debate entre os dois candidatos à Presidência dos Estados Unidos, o atual presidente Donald Trump e o ex-vice presidente Joe Biden, deixou evidente o porre que é o formato e o quanto é impossível que algum eleitor jovem assista àquele horror. É ruim, tosco, chato e desinformativo. Dois homens acima de 70 anos em cenário azul ofuscante, um falando sem parar sobre a fala do outro, e sem produzir qualquer sentido. Era uma mistura de descontrole verbal com tédio e filme trash. E olhem que estamos falando das eleições da nação (ainda) mais poderosa do mundo e disputadas por dois bilionários acostumados com câmeras e com jogos de performances em espaços públicos e midiáticos.

JOGO DO BICHO - Projetem as cenas para as eleições locais e teremos, independentemente das torcidas dos respectivos candidatos, a impossibilidade de negar o óbvio: quem, diante dos debates que começam hoje, no Brasil, conseguirá decidir um voto a partir de um debate eleitoral? Debates nunca foram a quintessência da atratividade televisiva, mas convenhamos que, em algumas épocas, alguns tipos e alguns personagens mitológicos das eleições brasileiras nos arregalavam os olhos, pelos despropósitos, pelo currículo, pela oratória ou pelo humor. Das últimas eleições, o que guardo na memória é apenas o “glória a deush”, com o forte sotaque carioca do Cabo Daciolo. O resto eram perguntas e respostas do tipo escadas, combinadas, engessamentos e performances burocráticas. 

A lógica das perguntas e respostas dos debates tem um quê da semiótica do apostador típico do jogo do bicho. O sujeito sonha com um jarro, faz umas equações subjetivas de significados e sai de casa para apostar no pavão ou na borboleta. No debate, o concorrente pergunta para onde foi o dinheiro da obra tal, que um aliado do candidato nunca entregou. Este começa a falar dos aprendizados com o avô, da rua da infância, e termina citando um verso do hino ao Senhor do Bonfim. 

LÍNGUA DO X - Talvez não tenhamos ainda a menor ideia do que colocar, nas campanhas eleitorais, no lugar dos debates. Mas que a fórmula está corroída pelo mofo, quem duvida? Sobretudo agora, depois de nove meses de pandemia, durante os quais mesmo quem não era virou estrela de lives, tornou-se blogueirinho, influencer, coach ou youtuber, sabe tudo de vídeo.

Vendo os perfis dos candidatos nas redes, os vídeos dos jingles, parece haver uma vala aberta em cada campanha, um buraco entre a caduquice embolorada dos debates e os vídeos engraçadinhos que cada marqueteiro edita com as ferramentas do TikTok e do Reels, para fazer de conta que o candidato é moderninho, engraçadinho. Tá puxado, mas talvez haja um mérito. Até terminar a campanha, talvez votantxs e candidates aprendam essa língua do x e do e. No debate, vão falar assim? 

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