
Ancelotti e a crise que não é importada
O incômodo de treinadores brasileiros diante da chegada de um estrangeiro ao comando da Seleção é legítimo e até necessário

Foto: Reprodução
O Brasil sempre defendeu com orgulho o fato de ser a única seleção do mundo com cinco títulos de Copa do Mundo “100% nacionais”. Ou seja, todas as conquistas foram obtidas com jogadores brasileiros natos e treinadores igualmente brasileiros. Ao nosso lado, e com orgulho semelhante, estão apenas os vizinhos argentinos, inferiores ao Brasil apenas no número de títulos: três contra cinco.
Brasil e Argentina também se orgulham da exportação de talentos, com jogadores campeões do mundo defendendo outras seleções, como Thiago Motta (brasileiro) e Mauro Camoranesi (argentino), campeões com a Itália em 2006.
Entretanto, neste ano, abrimos a cabeça (superando um ufanismo sem sentido) e os braços para dar boas-vindas ao consagrado treinador italiano Carlo Ancelotti no comando da Seleção Brasileira. Uma chegada celebrada por muitos, diante do sufoco vivido pelo Brasil nas Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo de 2026 e da baixa qualidade do futebol apresentado nos últimos anos, apesar do inegável talento individual dos jogadores.
Essa nomeação, porém, também foi recebida com hostilidade por parte significativa do meio, sobretudo entre treinadores locais. Para ilustrar, houve o episódio de grosseria extrema protagonizado pelos ex-treinadores Oswaldo de Oliveira e Emerson Leão, que se referiram a uma suposta “invasão” de profissionais estrangeiros no país, durante evento da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), na presença do próprio Ancelotti, em novembro.
O incômodo de treinadores brasileiros diante da chegada de um estrangeiro ao comando da Seleção é legítimo e até necessário. No entanto, os comentários feitos seguiram, a meu ver, uma linha medíocre e tacanha. Seria muito mais pertinente que se perguntassem o que faltou e onde falharam a ponto de o Brasil não dispor hoje de um treinador nacional pronto e à altura de comandar a Seleção em uma Copa do Mundo. Alguns nomes despontam como promessas, é verdade, mas ainda têm um longo caminho a percorrer.
Embora seja factual afirmar que o Brasil conquistou cinco títulos mundiais sem recorrer a ajuda externa, é imprescindível olhar para nós mesmos com espírito crítico, sem paixões ou subjetividades, para compreender o que nos conduziu à situação atual.
Carlo Ancelotti acumula inúmeros títulos em diferentes países. É, incontestavelmente, um treinador de excelência, capaz de se adaptar a contextos diversos e de manter relações positivas com jogadores, torcedores e imprensa. Para além dos resultados, tem sido muito positivo ver à frente da Seleção um técnico com postura condizente com o peso da sua história.
Carletto, como é carinhosamente chamado na Itália, tem estatura para tomar decisões técnicas e sustentá-las, sem se perder em discussões pequenas e irrelevantes, nem em picuinhas e debates superficiais e acríticos da própria imprensa esportiva.
Que os novos ares vindos de fora sacudam positivamente o futebol brasileiro e nos obriguem a um olhar mais honesto no espelho, exigindo mudanças profundas na estrutura e na gestão da CBF. Afinal, o que acontece em campo é, quase sempre, um simples reflexo da gestão — ou da ausência dela.
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