
Apagão: o apocalipse em um dia
Depois de 14 anos sem um apagão, todo brasileiro acordou nesta quarta-feira com uma história para contar

Foto: Reprodução
Em algum lugar gerido pela Eletrobras, um sistema tecnológico digitalizado, ou sabe-se lá que forma tenha, desliga-se automaticamente ou é desligado e 26 unidades do país, com exceção de Roraima, ficam sem energia elétrica. À medida que os primeiros minutos avançam, a impressão de que faltou energia em nossa casa se transforma na descoberta de que faltou no Brasil inteiro. A sensação de viver sob essa experiência é, em alguns aspectos, semelhante a, por um intervalo de algumas horas, não dispor de décadas e décadas de conquistas tecnológicas e avanços.
Depois de 14 anos sem um apagão nessa escala, todo brasileiro acordou nesta quarta-feira, com uma história para contar. E sorte de quem não registrou nessa data um evento triste, trágico, assustador ou um prejuízo material e financeiro desses que bagunçam a vida por um bom tempo. De repente, e não se pode trabalhar por telefone ou computador porque não há serviços de dados móveis e nem mesmo fonte de energia para baterias. Aplicativos de transporte e de entregas eram como se não existissem. O mais trágico dos setores é o da saúde. Atendimentos, mesmo os emergenciais, foram suspensos. Sessões de quimioterapia, cirurgias, procedimentos, tudo parou.
O progresso técnico e o combo de confortos que cada um adquire conforme sua respectiva renda desaparecem. No Norte do Brasil, com as temperaturas do verão amazônico que só quem já viveu sob é capaz de imaginar, a impossibilidade de ligar um ar-condicionado ou um ventilador beira o limite do incompatível com a vida. Não é ironia, mas a população de Roraima parecia ter trocado de lugar, por cerca de 6 horas, com a do Brasil inteiro. Quem não se lembra do apagão que afetou o estado em 2019 por quase duas semanas?
Uma caixa de fósforo e Larissa Manoela
Do pânico de quem tinha parentes submetendo-se na manhã da terça-feira a um procedimento ou aguardando atendimento a situações bizarras de gente que tem em casa um fogão elétrico mas não dispunha de uma caixa de fósforos ou de um isqueiro e não podia cozinhar, passando pelo risco de dirigir por absoluta necessidade no trânsito das grandes metrópoles sem sinal de trânsito. De humor involuntário, só algumas falas na televisão. Estudantes se dizendo muito tristes por terem perdido um dia de aula e jornalistas sem noção dizendo que “o apagão pegou muita gente de surpresa”. De onde se deve deduzir que alguém, então, sabia e ficou zero supreso…
A turma da conspiração foi ágil. Óbvio que era coisa do bolsonarismo, para fazer cortina de fumaça e tirar das manchetes as informações sobre as joias viajantes da família e suas transações de venda e recompra pelo advogado feioso de cabelo besuntado. Do lado do PT, a razão de tudo: a privatização. O argumento foi puxado pela primeira-dama, Janja, num tuíte. Seis horas depois do apocalipse instalado, sem WhatsApp e sem Instagram, o brasileiro pôde voltar a respirar. Já podia voltar a falar do seu assunto preferido da semana: a violência patrimonial de Larissa Manoela, que rendeu ao Fantástico, no domingo, uma audiência recorde há muito não experimentada.
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