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Sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Por que não um Museu da Percussão Baiana Nelson Maleiro?

A Bahia, muitas vezes, despreza os próprios filhos. Ainda mais os pretos. Temos a faca e o queijo. Falta a mão

Por que não um Museu da Percussão Baiana Nelson Maleiro?

Foto: Reprodução

Por: James Martins no dia 25 de janeiro de 2024 às 00:00

No último sábado, dia 20 de janeiro, o saubarense Nelson Maleiro teria completado 115 anos. Morto em 1982, ele foi o mais versátil, o mais completo carnavalesco da Bahia e, talvez, do Brasil. Músico, compositor, luthier (a palavra em português é lutaio, tão feia que não pegou), fundador e membro de blocos e afoxés importantes como Mercador e Cavalheiros de Bagdá, engenheiro, fantasiado (ajudou a popularizar o imaginário oriental nos dias momescos, vestido a la Aladim), criador e construtor das mais fantásticas alegorias que nossas ruas viram nas décadas de 1960/70.

À sua oficina, na avenida J. J. Seabra, a popular Baixa dos Sapateiros, n° 28, se dirigiam todos os que queriam os melhores instrumentos de percussão possíveis na época: de Dorival Caymmi a Raul Seixas, de Gilberto Gil aos Novos Baianos. Com sensibilidade de músico, Maleiro fazia com as próprias mãos os bongôs, as congas, os surdos, os atabaques mais incríveis. E, quando ainda não havia bateria industrializada na Bahia, a indústria de bateria para rock’n’roll e afins, em modelo americano, atendia pelo nome de Nelson Maleiro. Estou contando tudo isso para dizer que me parece inadmissível que no imóvel, que permanece lá no mesmo lugar, não haja sequer uma plaquinha fazendo referência ao gênio criativo que ali habitou e trabalhou.

Na verdade, ali devia se estabelecer o Museu da Percussão Baiana Nelson Maleiro, com curadoria de dona Emília Biancardi. Pois, não apenas para o entretenimento, ele revolucionou também a própria música sagrada, fabricando os atabaques litúrgicos (rum, rumpi e lé) em tiras, não mais com um corte único, sistema que vige até os dias atuais, tornando sua oficina o verdadeiro templo da percussão local. “E quando a Portela quis botar a cabeça da águia para mexer, quem foi que eles chamaram? Ele, Nelson Maleiro”, depôs Carlinhos Brown em entrevista para o filme “Axé - Canto do Povo de um Lugar”, de Chico Kertész. E Paulinho Camafeu confirmou: 'Antes das escolas de samba do Rio terem alegorias móveis, ele já fazia aqui. Antes, antes, bem antes…”.

Se fosse em uma terra que se respeita, a oficina de Nelson Maleiro seria ponto de visitação para gente do mundo inteiro. Mas a Bahia, muitas vezes, despreza os próprios filhos. Ainda mais os pretos. Temos a faca e o queijo. Falta a mão.