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Salvador tem o pior atendimento: onde se lê garçom, leia-se escravo

Salvador tem o pior atendimento: onde se lê garçom, leia-se escravo

Quando se abre um bom estabelecimento, gasta-se com estofado, iluminação chique, granito… e se economiza no pessoal. A avareza, aliás, já começa muito antes, pois no mais das vezes quem trabalha em tais funções estudou (se é que) em escolas onde nem em estrutura se investe

Salvador tem o pior atendimento: onde se lê garçom, leia-se escravo

Foto: Reprodução

Por: James Martins no dia 21 de março de 2024 às 00:00

Uma amiga minha chega na lanchonete e pergunta: tem calzone? A garçonete responde, sem cerimônia: não sei nem o que é isso! Vamos combinar que o atendimento, em Salvador, é normalmente tão ruim que chega às raias do absurdo. Um canal de humor poderia tirar infinitas cenas só reproduzindo o dia-a-dia de um bar, restaurante, padaria local. Quem nunca ficou tentando chamar o garçom enquanto ele, solenemente, virava a cara de propósito? Pois é, e numa cidade cuja indústria é o entretenimento, o turismo, a farra, o absurdo torna-se ainda mais absurdo. E só confirma o que eu comecei a falar há algumas edições do Jornal Metropole: isso aqui, queridxs, não é capitalismo ainda, é um estágio piorado e muito mais selvagem de exploração do que aquilo que se dá no cerne das nações capitalistas que nós fingimos o tempo todo imitar.

Já me aconteceu de pedir um pastel, vir o sabor errado e ouvir do garçom: coma esse mesmo, rapaz! Já me aconteceu de um tudo nessa terra amada. E me irrito tanto que às vezes pergunto o seguinte a quem me acompanha: “vamos ser humilhados onde hoje?”. Porém, há um aspecto histórico que pode ajudar a entender a razão de sermos tão ruins assim na prestação de serviço e, de quebra, serve como protesto involuntário contra a doença que nos acomete como sociedade. Pois a verdade é que não superamos a escravidão. E há um lance pouco falado daquele sistema que me parece iluminar algo: o escravizado tinha direito a comprar a própria alforria. O que, em geral, não se tinha, eram meios para isso. Assim, a questão é que, quanto melhor o escravo, mais alto o seu preço e, portanto, mais distante a sua liberdade. Para ele, que não participava em nada do benefício de seu próprio trabalho, não havia razão para se esforçar em ser bom — exceto, é claro, evitar castigos.

Em geral, os garçons e outros atendentes ainda trabalham em condições muito parecidas com aquelas. Não apenas por desempenharem funções que deveriam ser distribuídas com outros, mas também por ganharem tão pouco que já nem sonham em garantir o mínimo de dignidade com o suor de seu rosto. O que resta? Sabotar. Dar um migué, atrasar, bebericar uma dose do coquetel escondido etc etc etc. A menina que respondeu sequer saber o que é um calzone me lembrou aquela música de Gabriel, O Pensador, que diz: “Aquilo que o mundo me pede, não é o que o mundo me dá”. E não estou falando exatamente do salgadinho.

Quando se abre um bom estabelecimento, gasta-se com estofado, iluminação chique, granito… e se economiza no pessoal. A avareza, aliás, já começa muito antes, pois no mais das vezes quem trabalha em tais funções estudou (se é que) em escolas onde nem em estrutura se investe. O tiro sai pela culatra quando a atendente, inadvertida, revela a realidade com sua ignorância de chocar clientela e patronato. O atendimento péssimo é um sintoma de desequilíbrio social profundo. E não adianta criar cursos de formação específica, nos Senacs da vida, enquanto o coração da questão continuar infartando. A gente finge que não os vê, eles fingem que não nos veem. E a comida estraga na cozinha.