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Segunda-feira, 24 de junho de 2024

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A sinhazinha e o true crime em Manaus

A sinhazinha e o true crime em Manaus

Em Manaus, mais uma história pronta para se tornar produto de streaming e antenada com a tendência do segmento nos últimos anos, os true crimes

A sinhazinha e o true crime em Manaus

Foto: Reprodução

Por: Malu Fontes no dia 06 de junho de 2024 às 00:00

Nos anos 90 e início dos anos 2000, em Manaus, um apresentador de TV se tornou famoso, líder de audiência, rico e deputado estadual, eleito três vezes com votações recordes. Era Wallace Souza, apresentador do programa Canal Livre, na TV Rio Negro, hoje renomeada por Band. Wallace era ex-policial civil e, no programa, com simulacros até hoje em todo o país, perseguia banditismo em coberturas policiais espetaculosas e sempre sob a missão de combater o crime e os criminosos. O que não se sabia era que Wallace literalmente matava por audiência. Encomendava mortes a matadores para filmar as circunstâncias inventadas, o cenário e, claro, o mais importante: os corpos mortos. 

Wallace morreu de infarto em meio aos processos sofridos após as primeiras denúncias, surgidas em 2008. Sua história foi imortalizada e roda o mundo. Foi roteirizada e transformada em uma série com sete episódios, disponível na Netflix, desde 2019. Se não viu, corra para ver “Bandidos na TV”, um dos capítulos mais inacreditáveis da televisão brasileira. Para Wallace, era uma questão de lógica: o seu telespectador queria ver crimes, mortes. E numa semana, digamos, de paz, sem nenhuma história relevante, o que se faria? Encomendava-se uma morte para oferecê-la aos telespectadores. E o ibope mantinha-se garantido.  

Roda para o século XXI. De novo Manaus tem uma história pronta para se tornar produto de streaming e antenada com a tendência do segmento nos últimos anos, os true crimes. Quem não leu ou viu nada nos últimos dias sobre a morte de Djidja Cardoso, a moça que era ex-sinhazinha do Boi Garantido, do Festival de Parintins, foi poupado de um roteiro cujo spoiler explosivo termina em morte e funde drogas sintéticas, anestésico de cavalo, incesto, seita, rituais com animais silvestres ofertados em sacrifício, uma rede de salões de beleza chamada Belle Femme, crianças usando substâncias tóxicas e experimentos caseiros de ressurreição. 

Envolta numa seita liderada por ela mesma, sua mãe e seu irmão, Djidja, 32 anos, teria morrido de overdose causada por cetamina, um anabolizante de cavalo hoje tendência como droga recreativa, ansiolítico e alucinógeno. Os vídeos, os áudios, os prints de conversas familiares e as entrevistas de amigos, e até do delegado, tornam qualquer true crime disponível no streaming meio ingênuo ou leve e têm potencial para fazer par com ‘Bandidos na TV’, pelo grau altíssimo de ineditismo comportamental que pessoas aparentemente comuns podem revelar. 

Breaking Bad e Jesus

Na ficção alucinógena em que a família vivia, acreditando nas drogas como passaporte para conexão com o divino, mataram a avó, uma senhorinha octogenária com uma dúzia de diagnósticos desses que vão se hospedando no envelhecimento. Deram-lhe uma dose cavalar e fatal de cetamina. A ideia era a ressurreição do corpo e a restauração plena da saúde. No teatro encenado pela seita criada pela família, “Pai, Mãe, Vida”, Djidja era Maria Madalena, o irmão era Jesus e a mãe era Maria, a imaculada. Ao redor, funcionários do salão, conhecidos e um network com clínicas veterinárias, lojas de produtos pet, receitas médicas, blisters de medicamentos controlados, cartelas de drogas sintéticas e rede de fornecedores de drogas comuns, o povo do tráfico. 

A casa, nas imagens da polícia, parece cenário de Breaking Bad. Uma paisagem doméstica com cobras e tudo o quanto é tipo de remédios e psicotrópicos. Presos, o irmão e a mãe puxaram o delegado para um canto, o alertaram para as artimanhas da Matrix e o convidaram para esquecer tudo e ingressar na seita. Já na delegacia e depois no presídio, tiveram início as crises de abstinência de ambos. Para que roteirista? O roteiro está pronto, implorando por um diretor e um elenco.