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Xingar de CLT é a nova onda entre a gurizada

Xingar de CLT é a nova onda entre a gurizada

A famosa Carteira de Trabalho já foi o sonho de muita gente no Brasil. Pois hoje em dia, é sinônimo de pobre e fracassado. O menino vira para o outro na hora do recreio e joga a praga: “Quando crescer, você vai ser CLT”

Xingar de CLT é a nova onda entre a gurizada

Foto: Reprodução

Por: James Martins no dia 28 de agosto de 2025 às 06:52

Quer ofender um jovem na faixa dos 12 aos 17 anos? Xingue ele de CLT. É isso mesmo que você ouviu, ou melhor, que você leu: CLT (a sigla para Consolidação das Leis Trabalhistas) virou palavrão, ofensa braba entre uma parcela significativa da juventude brasileira. Decretada por Getúlio Vargas em 1° de maio de 1943, a famosa Carteira de Trabalho já foi o sonho de muita gente no Brasil, dada a tendência à informalidade e desproteção legal. Pois hoje em dia, é sinônimo de pobre e fracassado. O menino vira para o outro na hora do recreio e joga a praga: "Quando crescer, você vai ser CLT". Num vídeo que viralizou no TikTok, uma influenciadora compartilhou a definição que ouviu de sua filha de 12 anos: "Andar de ônibus todo dia. Muita gente, chefe, pessoas mandando". E é oportuno que a discussão passe pelo espanto de uma mãe-influencer, pois é justamente nesse ambiente que a onda anti-CLT vem crescendo. A galerinha criada em rede social quer ser mesmo é empreendedora, PJ, empresária, rica.

Até aí nada contra. Mesmo porquê, uma parte do temor da CLT se justifica. Por exemplo, com o crescente envelhecimento do país, vai sobrar aposentadoria para quem hoje contribui com a previdência? A questão é que essa estigmatização do trabalho de carteira assinada vem servindo mesmo é para criar a falsa ilusão do empreendedorismo, na verdade uma palavra bonita para disfarçar a crescente precarização. O sujeito achar que ser entregador de iFood é ser empreendedor. É preciso fazer as contas direitinho, para talvez chegar à conclusão de que os caraminguás a mais no imediato fim do mês não justificam ficar ao deus dará se cair da bike com um carregamento de pizza.

O que eu gostaria mesmo de ver, era essa energia canalizada para darmos ferramentas efetivas de incentivo ao real empreendedorismo nacional. Formas de transformar o "se vira nos 30" do barbeiro que monta sua banca no meio da rua em uma efetiva política de startups. Por enquanto, fica o espanto e a risada de desespero cada vez que um menino desses xingar o outro de CLT, como quem diria pé-rapado ou até mesmo vagabundo. Tempos estranhos.  

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