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Sábado, 13 de julho de 2024

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A direita avança no mundo

A direita avança no mundo

Abraçar o discurso radical parece já não ter nada a ver com acreditar ou com qualquer decisão ancorada em racionalidade

A direita avança no mundo

Foto: Reprodução

Por: Malu Fontes no dia 04 de julho de 2024 às 00:00

A impossibilidade de os governos ditos de esquerda, centro-esquerda ou progressistas darem as respostas, cumprirem as clássicas promessas do discurso político-eleitoral e fazerem as entregas aos cidadãos, principalmente às franjas mais desvalidas nos mais diferentes países do mundo, tem levado a extrema-direita a ascender numa escala até aqui à prova de enfrentamentos que a façam frear. Em qual país do mundo onde a extrema-direita vem avançando os respectivos governos progressistas contemplaram as necessidades básicas dos mais pobres, como política habitacional, pleno emprego, segurança, renda, ascensão social via educação e trabalho, saúde e bem-estar? 

A frustração diante da estagnação econômica e social da vida ou da piora dela, a impossibilidade dos governos de oferecerem solução e o discurso da extrema-direita em apontar inimigos a serem combatidos, como os comunistas, a esquerda, os políticos tradicionais, os imigrantes, os gays, os artistas, a imprensa e outros demônios inventados formam a equação que fermenta a ascensão da direita no mundo. De El Salvador à França, da Hungria ao Brasil bolsonarista, do Equador aos Estados Unidos trumpista. Os resultados das eleições na França para o Parlamento Europeu e no primeiro turno da eleição legislativa, assim como a popularidade de Donald Trump nos Estados Unidos desenham o cenário.

Não se trata de a população acreditar ou não em promessas da direita, de apostar na tese de que governos reacionários vão resolver seus problemas urgentes. Abraçar o discurso radical parece já não ter nada a ver com acreditar, esperar mudanças concretas ou com qualquer decisão ancorada em racionalidade. É uma adesão movida pela raiva, pelo desencantamento diante de tudo o que há no mundo e por uma espécie de vingança por tudo que o levou – o eleitor e o cidadão – ao seu estágio atual de pobreza, desesperança, revolta e perda de fé nos homens públicos que falam em democracia, futuro, desenvolvimento econômico e bem-estar social. 

Sem nada para acreditar, populações pelo mundo se aglutinam em torno desse sentido novo dado à palavra narrativa, agora transformada num jeito curto de dizer que a realidade, a racionalidade, a verdade e os fatos já não têm a menor importância. O importante é o que eu digo, seja lá o que for. Não é à toa que, debatendo com um opositor que mais parecia um ‘Tio Paulo’ levado por uma sobrinha àquele púlpito eletrônico, Donald Trump citava uma fileira de fatos inventados e de números inexistentes para descrever os Estados Unidos supostamente destruído pelos democratas representados por Joe Biden. E ninguém contestava. 

Biden não contestava as invenções do adversário porque praticamente nem estava ali. Os jornalistas mediadores não o faziam por considerarem que, numa disputa eleitoral, quem tem que contestar mentiras em um debate é o debatedor alvo – no caso, Biden. E para os eleitores dos Estados Unidos, dado o estado físico de Joe Biden, o que repercutiu nos dias seguintes foi exatamente a incapacidade cognitiva do atual presidente e candidato à reeleição de manter-se atento ao que ouvia e, principalmente, a incapacidade de reagir. 

Se alguém tem dúvida dos métodos discursivos da extrema-direita, em todo o mundo, e das razões pelas quais eles funcionam, basta procurar na internet a entrevista concedida esta semana pelo seu guru mundial, Steve Bannon, ao The New York Times. Acha-se traduzida ou traduz-se facilmente na web. Está tudo lá com uma clareza de água transparente. E as coisas que ele defende aplicam-se facilmente às práticas e aos discursos que a gente vê e ouve todos os dias, das lideranças do segmento no Brasil e aos comportamentos e pontos de vista de pessoas que conhecemos, seja de gente pobre ou de classe média alta. Porque rico, rico mesmo, no fundo, importa-se muito pouco com o que quem chega ao poder pensa. O dinheiro, quando em grande quantidade, adapta-se sempre muito bem a quase tudo.

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