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Ford: nada está bom, nunca

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[Ford: nada está bom, nunca]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 14 de Janeiro de 2021 ⋅ 08:05

Nos últimos anos, os trabalhadores brasileiros comeram o pão que o diabo amassou, sempre torturados com a tese, na imprensa, nos locais de trabalho e nos cursos de reciclagem nos quais apostam para salvar sua empregabilidade, de que tudo de ruim que acontecia com suas vidas, todas as perdas de direito, eram para quê? Para o bem deles próprios, empregados e desempregados. A reforma trabalhista era para quê? Para fazer com que o mercado, com custos menores por cada trabalhador, pudesse voltar a contratar, a gerar novos milhões de vagas. Ah, o trabalhador brasileiro era muito caro. Baixariam-se os custos e os empregos se multiplicariam. Uma multidão foi dispensada e os novinhos contratados ficaram baratíssimos. Ou se submetem a vender suas 24 horas do dia a preços módicos ou vazam sem trabalho.


Com mais gente trabalhando, mais dinheiro em circulação, mais consumo e mais desenvolvimento, o Produto Interno Bruto cresceria e aquela ladainha otimista toda dos economistas e âncoras dos telejornais de todas as matizes editoriais. Mas, na prática, o que aconteceu? Está aí um contingente imenso de gente procurando emprego e trabalho e não acha. Outro contingente trabalhando em condições de exploração, e o surgimento dessa categoria chamada pelo nome bonito de empreendedor individual, que vai do ambulante que rala mais de 12 horas na rua para ter uma renda mínima aos motoristas de aplicativos e aos entregadores de comida. Perguntem se todos eles não preferiam ter um emprego formal. Mas emprego é coisa do século XX. No XXI, a palavra é trabalho, e sorte de quem tem alguma habilidade para vender e encontre no mercado quem esteja disposto a pagar por ela.


Veio a Reforma da Previdência, que iria tirar o país do afogamento financeiro, ajudar a sanear as finanças do Estado, equilibrar as contas públicas, consertar o déficit público brasileiro para, enfim, o governo construir o futuro, investir em infraestrutura, saúde, educação, tudo o que a gente já sabe. A Reforma foi feita. Os efeitos positivos, dependendo de a quem se pergunte, continuam difíceis de enxergar. E todos já parecem ter esquecido das duas reformas. 


Agora, o que está em cartaz é a queixa de que o país não avança, a economia não deslancha e não sai do atoleiro porque não se acena com segurança jurídica para o capital estrangeiro e porque o Congresso não consegue fazer a reforma tributária para desonerar a folha de pagamento, para mexer no tal custo Brasil. O capital e as engrenagens da economia sempre terão seu álibi da vez, um vilão no colo de quem atiram todos os argumentos para cortes de investimentos, fugas de capitais, freios nas estratégias. Na verdade, independentemente de cenários favoráveis ou de crises, como a de agora, acentuada pela pandemia, nada haverá de estar bem, nunca, na boca do empresariado. 


DIABO - Na segunda-feira, quando o país foi surpreendido, inclusive os governos dos respectivos estados, o presidente da República e todos os escalões, de que a Ford fecharia todas as suas unidades no Brasil, a primeira grita foi: a montadora está deixando o Brasil porque este é um país impossível, com regras impossíveis, um governo idem e o custo Brasil é insuportável. Há um quê de verdade nisso? Há. Como o diabo mora nos detalhes, unzinho, um detalhe, para ilustrar o tal custo. Quem passou recentemente pelas vias rodoviárias que ligam Camaçari à BR324 e por onde precisava passar o escoamento de toda a produção da Ford, viu as condições das pistas? E aquilo é só uma amostra das rodovias braseiras. A própria 324, pedagiada, é um horror. 

Mas é bom manter algum senso para compreender que não só pelo custo Brasil, ou por conta de Bolsonaro, ou por não obter subsídios generosos dos governantes, a Ford anunciou sua saída do país. O mundo como o conhecíamos acabou e os ventos que determinam a manutenção ou a fuga de investimentos de uma indústria com a complexidade da automobilística são outros. A clientela que chega é outra, os sonhos de consumo estão em transformação e o capital é estratégico e move-se como aves de arribação. Fogem antes da tempestade chegar, de olho em um futuro que a gente ainda nem vislumbrou. Estão certos os que falam todo o tempo em custo Brasil, mas não deixa de ser o topo da incoerência que as mesmas pessoas que falam tanto nisso não movam um cílio para acudir a tragédia que é a formação educacional do brasileiro médio. Com a formação escolar que temos, nosso futuro é a marcha ré. 

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