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Ademar Furtacor: entre volumes e intensidades, Frenesi

Artista revelou possibilidades ao Carnaval de Salvador e deixou seu nome na história

[Ademar Furtacor: entre volumes e intensidades, Frenesi]
Foto : Divulgação

Por James Martins no dia 14 de Janeiro de 2021 ⋅ 09:10

Praça Castro Alves. Carnaval de 1984. Madrugada da Quarta-feira de Cinzas. A multidão, siderada, interrompe seus pulos frenéticos para sorver, em sagrado silêncio, a melodia que o francês Charles Gounod compôs em 1853 para se sobrepor ao Prelúdio Nº. 1 em C maior, de Johann Sebastian Bach. A música atende pelo nome de “Ave Maria” e costuma tocar às 18 horas em rádios de todo o país. A cena, digna de Woodstock, chamou atenção da imprensa e despertou nos envolvidos a consciência da grandeza do momento. Parecia cinema. Imagem e som. Mas era mais que cinema, já que envolvia presença, tato. Teatro, talvez. Mas também era mais que teatro: era Carnaval. E ainda mais: era o Carnaval de Salvador; em pessoas. O autor da proeza, Ademar Andrade, natural de Nazaré das Farinhas, comandava a banda Furtacor no bloco Papa Léguas e, desde ali, marcou seu nome na história. Nome que, aliás, passaria a ser Ademar Furtacor.

Nesta segunda-feira (11), aos 62 anos, Ademar Furtacor morreu, vitimado pelo câncer que o acossava desde 2010. Nesse período, porém, honrou a reputação de quem fez da reza folia e da folia uma reza, em plena praça do poeta. Voltemos à história: Aquele era um Carnaval especial — 100 anos do próprio Carnaval de Salvador, 10 anos de Ilê Aiyê, etc. No tradicional encontro de trios, o do Novos Baianos se recusa a dar passagem ao do Papa Léguas. Insolente, Baby Consuelo até perguntou se é um “radinho de pilhas” que solicita. E é bem aí que Ademar ataca de Ave Maria e mostra que volume e intensidade são medidas diferentes. “Só existia eu e a música. Era como se o mundo tivesse parado. Lembro que toquei com os olhos fechados e com o coração na boca, até a última nota”, contou anos depois.

Só ele e a música. Ela, aliás, o ajudou a segurar a barra da doença, esse tempo todo, até mesmo com alegria. "Esse mal devastador não vai tirar a minha alegria, nem a minha vontade de viver feliz", declarou Ademar em 2018, ao lançar a canção “A Felicidade Tá no Sol”, que tematiza sua batalha. E completou: "Vou viver cada segundo como se fosse o último e valorizar as verdadeiras coisas que importam na vida". E por falar no que importa, a importância do autor de “Frenesi”, um verdadeiro hino do Carnaval, deve sempre ser reforçada. Amigos lamentaram a morte e também não faltaram em vida. Em outubro daquele mesmo ano, Luiz Caldas & Saulo subiram ao palco no show beneficente "Frenesi pra Ademar", que arrecadou fundos para o tratamento do artista.

De volta a 84, naquelas Cinzas a proeza de Ademar inspirou uma crônica de Dom Avelar Brandão Vilela, então Cardeal Arcebispo e Primaz do Brasil, e foi exibida no encerramento do Jornal Nacional, rompendo a tradição global de fechar o programa com o desfile das escolas de samba. Assim, se o Axé Music nasceria, digamos, oficialmente, no ano seguinte, com o disco de Luiz, o menino da Furtacor já estava sedimentando o caminho. Anos depois, a revista Veja estampou em capa: "A Bahia Venceu", sobre a disputa carnavalesca com Rio e Recife. E tudo isso passa pelos trilhos de Ademar. Num artigo especial para o Evoé, periódico momesco da Fundação Gregório de Mattos, Jorge Amado previra que o afoxé ganharia o país. Cito: "É quando o toque do agogô / Chama a galera pra dançar / Ao som do rufar do tambor / Um frevo axé barbarizar".

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