Flip homenageia Elizabeth Bishop e ignora João Cabral no ano de seu centenário

A escolha da poetisa norte-americana que apoiou o golpe militar de 1964 parece jogar pra torcida bolsomínia com um oportunismo de Gabigol

[Flip homenageia Elizabeth Bishop e ignora João Cabral no ano de seu centenário]
Foto : Divulgação

Por James Martins no dia 26 de Novembro de 2019 ⋅ 12:47

Na contramão de grande parte da classe artística, que faz questão de confrontar e/ou provocar o atual governo, a organização da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) parece ter optado pelo agrado de ocasião. Em sua 18ª edição, a Flip homenageia a poeta norte-americana Elisabeth Bishop, a primeira autora estrangeira escolhida desde a criação do evento, em 2003.

A opção cai como uma luva no momento em que todas as verbas para cultura estão ameaçadas ou sofrendo cortes de fato. Bishop, que viveu no Brasil entre 1951 e 1966, além de norte-americana, ou seja, co-patriota do nosso neo-nacionalismo-acima-de-tudo-i-love-you, defendeu o golpe militar de 1964. Mas, a verdade é que ninguém acredita que Bolsonaro saiba de nada disso e nem conheça seus poemas ou outros quaisquer. Será que Weintraub? 

Seja como for, a escolha indignou muitos poetas e escritores, como André Vallias, editor da revista Errática e autor de “Totem”. Em postagem no Facebook, ele lembra o óbvio: 2020 é o ano do centenário de João Cabral de Melo Neto! “Escabroso: centenário de João Cabral e a Flip homenageia a Bishop”, escreveu.

“A Bishop está em nossa lista de possíveis autores homenageados há mais de dez anos”, justifica o diretor artístico da Flip, Mauro Munhoz, no site do evento. Para ele, a escritora cumpre à perfeição a missão originária da homenagem, mais atual do que nunca em 2020 – “fazer a rica experiência da arte brasileira ser melhor reconhecida em qualquer lugar do mundo”.

O poeta e diplomata Felipe Fortuna também usou o Facebook como forma de protestar contra  a escolha. Em uma série de postagens ilustradas por fotos, FF relembra declarações polêmicas da autora de “North & South”. Como aquela que fala de Manuel Bandeira: "Manuel Bandeira é delicado e musical e tudo o mais - nada parece sólido ou realmente 'criado' - é tudo pessoal e tendendo para o frívolo. Um bom poema de Dylan Thomas vale mais do que toda a poesia sul-americana que já vi, com a exceção, possivelmente, de Pablo Neruda".

Outras versam o mau humor de Elizabeth ante a vida local: "Goiabada, acompanhada de queijo branco, é a sobremesa favorita do Brasil. (...) Talvez porque os brasileiros sejam em geral indiferentes à cozinha, como são ao conforto físico, a comida seja muito ruim". 

Mas, a essas podem ser confrontadas (embora em menor volume) outras declarações da mulher que, afinal, morou aqui voluntariamente por quase duas décadas. “Estou vivendo no Brasil há quase oito anos, a maior parte do tempo nas montanhas, perto de Petrópolis. Volto a Nova York quando posso, mas aqui é meu verdadeiro lar agora”, estampa o site da Flip, trecho de carta de Bishop à sua editora italiana, de 24 de julho de 1959.

"A suspensão dos direitos, a cassação de boa parte do Congresso etc., isso tinha de ser feito, por mais sinistro que pareça", escreveu também Elizabeth Bishop em carta a Robert Lowell a propósito do golpe militar de 1964. E prosseguiu: "De outro modo teria sido uma mera 'deposição', e não uma 'revolução' - muitos homens de Goulart continuariam lá no Congresso, todos os comunistas ricos fugiriam (como alguns fugiram, é claro) e os pobres e ignorantes seriam entregues à sua sorte".

É claro que não se pode afirmar que a escolha de EB como musa da Flip 2020 tenha razões políticas. Mas, que parece uma forma velada de diplomacia com o governo de Jair Messias Bolsonaro e suas tendências ideológicas, ah, isso parece. Para mim, no entanto, o grave mesmo é ignorar João Cabral de Melo Neto no ano de seu centenário. Um erro inadimissível ante o artista inconfessável.

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