Sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

O julgamento dos réus da boate Kiss: um retrato brasileiro

Uma das demonstrações de que esse país é um gigante que nunca acorda e parece condenado a permanecer adormecido em berços nada esplêndidos é o julgamento da Boate Kiss. Não pode ser considerado normal o fato de a responsabilidade por uma tragédia daquelas proporções levar quase uma década para chegar a julgamento

O julgamento dos réus da boate Kiss: um retrato brasileiro

Foto: Reprodução Jornal da Metropole

Por: Malu Fontes no dia 02 de dezembro de 2021 às 09:31

Por muito tempo, no futuro, no jornalismo, na ficção e nos livros de história, serão ditas ainda muitas coisas sobre o ano de 2013 no Brasil. Nove anos depois, o ano ainda é algo nebuloso, turvo, caleidoscópico, uma espécie de primavera árabe à brasileira, meio disforme, sem contornos. Os protestos nas ruas, a erupção da polarização, os black blocs, os convites ‘vem pra rua’, as bandeiras difusas de um ativismo sem cara. Tudo era um anúncio incompreendido do que viria depois, esse caos de agora. Da tese que muitos adotaram na época, a de “o gigante acordou”, chegamos àquela que hoje parece mais sensata e tradutora do presente aonde estamos: a montanha pariu um rato. 

Uma das demonstrações de que esse país é um gigante que nunca acorda e parece condenado a permanecer adormecido em berços nada esplêndidos é o julgamento, iniciado nessa quarta-feira, dos réus acusados pela morte de 242 jovens e de tentativa de homicídio dos 636 feridos sobreviventes no incêndio da Boate Kiss, em Santa Maria, a cidade universitária, no Rio Grande do Sul, na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013. Não pode ser considerado normal o fato de a responsabilidade por uma tragédia daquelas proporções levar quase uma década para chegar a julgamento. 

Inicialmente, a polícia enviou ao Ministério Público a conclusão do inquérito apontando 16 responsáveis criminais pela tragédia e 28 acusados de responsabilidades menores, indiretas. Donos da boate, músicos e produtores da banda, prefeito, secretários municipais, Corpo de Bombeiros e membros do próprio MP, a quem caberia apresentar a denúncia. A acusação se ancora em elementos que leigos não conseguem compreender por que o Ministério Público não os vê, de tão óbvios e contundentes. Como poderia uma boate com capacidade para mil pessoas ter sido aberta e estar funcionando há quase quatro anos sem cumprir com todos os pré-requisitos técnicos, de segurança obrigatórios para que tivesse alvará? 

FAMÍLIAS PROCESSADAS

O MP entrou em confronto não com as provas da Polícia, os depoimentos das testemunhas e vítimas e reduziu a acusação a quatro réus, estes que agora serão julgados em Porto Alegre, bem distante de Santa Maria, um privilégio para os acusados, que tanto brigaram para não irem a júri, e, se fossem, que o julgamento ocorresse longe dali, para que a comoção popular não prejudicasse ainda mais, interferindo na emoção e comoção dos sete jurados. 

Pior: membros do MP acusaram formalmente, processando-os, familiares de jovens mortos, a quem rebatem, dizendo-se vítimas de calúnia e difamação. E ainda pior: grupos de comerciantes da cidade rechaçam as famílias, por insistirem durante esses anos todos em fazer justiça pela morte de seus filhos e lesões irreversíveis nos sobreviventes. Para os comerciantes, a luta por justiça atrapalha a imagem da cidade, atrapalha as relações comerciais e a vinda de estudantes de outros pontos do estado e do país para estudar em Santa Maria. O julgamento deve ser um dos mais longos do país e o mais longo do Rio Grande do Sul. 
 

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