Editorial

'É essa a forma que nós queremos para combater a violência?' diz MK sobre caso Ágatha; ouça

Em comentário na Rádio Metrópole, Kertész ainda criticou a "manipulação do povo através de uma religiosidade fajuta"

['É essa a forma que nós queremos para combater a violência?' diz MK sobre caso Ágatha; ouça]
Foto : Tácio Moreira / Metropress

Por Metro1 no dia 23 de Setembro de 2019 ⋅ 08:32

A morte da menina Ágatha Félix, de 8 anos, durante operação policial no Rio de Janeiro, na última sexta (20), foi o principal assunto do comentário de Mário Kertész, hoje (23), na Rádio Metrópole. MK se mostrou profundamente indignado com o caso e repudiou o incentivo à violência policial como forma de combater o crime no país.

"Esse assassinato dessa menina, porque para mim isso é assassinato, assassinato do Estado, que defende, incentiva, que quer tirar qualquer tipo de responsabilidade de policiais levianos, que saiam atirando pra qualquer lugar. O povo pobre, da periferia, mais uma vez agora sofre pelas mãos violentas do Estado, sobretudo no Rio de Janeiro, dirigido por um governador com pensamentos e ações absolutamente vergonhosos. Agatha Félix e mais 16 crianças, assassinadas por ação policial. Vai acontecer alguma coisa? Não. A única autoridade que abriu a boca pra falar foi o ministro [da Justiça] Sergio Moro, que lamentou e pediu que a investigação fosse profunda e séria. É o que nós esperamos, embora eu não acredite que vá para lugar nenhum. (...) Essa morte teve repercussão no mundo todo, como a morte de Marielle Franco e Anderson. Marielle ganhou um jardim em Paris, e aqui, no Rio de Janeiro, o atual governador ajudou a lascar a placa que tinha o nome dela numa rua. Lembram disso? Pois é. É essa a forma que nós queremos para combater a violência? Com mais violência, que vai levar a bandidagem a ser mais violenta ainda?", questionou.

MK citou a ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos, como exemplo do poder transformador da juventude, e lamentou que os jovens brasileiros estejam tão "caretas" e "reacionários". "No normal, o jovem é revolucionário, quer mudar o mundo, quer melhorar o mundo, contestar a ordem vigente. (...) A ditadura, não adianta dizer que foi 'ditabranda' não, foi ditadura militar! Por 21 anos dominou e calou a voz do povo brasileiro. Isso fez com que nossa juventude se tornasse indiferente, preocupada em ficar bonita, frequentar academia, se depilar, andar bonito, ser magro, gordo, ou isso ou aquilo, usar artigos de grife", analisou.

Kertész ainda lembrou que o Brasil é construído a partir da "mistura", embora avalie que a tendência do atual governo seja transformar o país em um "Estado de pensamento único", onde "só Jesus salva". "Eu não duvido que Jesus salve aqueles que acreditam nele. Eu tenho o maior orgulho de ter conhecido e ver que Irmã Dulce virou uma santa. Mas eu detesto a manipulação do povo através de uma religiosidade fajuta, que explora, domina, amortece os pensamentos, que tenta fazer de todos pessoas bem-comportadas. No fundo, todos somos personagens de Nelson Rodrigues: hipócritas, mentirosos, traidores, adúlteros, corruptos. No fundo, todos somos isso. Todos, sem exceção. Salvo os santos, como Irmã Dulce", disse.

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