
Política
Estratégia de campanha de Lula repercute na Argentina após virada histórica no segundo turno
Agência brasileira detalhou ao jornal argentino Ámbito como o uso da imagem de Javier Milei, a mobilização digital e o alerta sobre perda de direitos ajudaram o presidente a reverter o resultado em três semanas

Foto: Ricardo Stuckert
A estratégia de comunicação que levou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à vitória sobre Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições presidenciais brasileiras está sendo repercutida na Argentina. Em entrevista a um grupo de veículos de imprensa, entre eles o jornal argentino Ámbito, integrantes da agência brasileira Nordx detalharam as ações utilizadas para reverter a vantagem do adversário em apenas três semanas.
A campanha foi desenvolvida pela Nordx em parceria com o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira. Os responsáveis pelo trabalho, Rafael Marroquim, Chico Kertész e Marcelo Kertész, além de Antón Pombo, representante da empresa na Argentina, explicaram como a comunicação digital, a mobilização nas ruas e a exploração de temas econômicos e sociais contribuíram para o resultado.
Um dos elementos que chamou atenção foi o uso da imagem do presidente argentino Javier Milei e de sua motosserra, símbolo dos cortes promovidos por seu governo. Na campanha de Lula, a referência foi utilizada como alerta sobre possíveis perdas de direitos trabalhistas, aposentadorias e benefícios sociais caso o bolsonarismo retornasse ao poder.
A repercussão ocorre em um contexto no qual a vitória de Lula contrariou o resultado do primeiro turno. Em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro havia conquistado 47,03% dos votos, enquanto o petista recebeu 45,16%. Vinte e um dias depois, Lula venceu o segundo turno com 51,79%, contra 48,21% do adversário, uma diferença de 4,43 milhões de votos.
Motosserra de Milei foi usada como alerta eleitoral
Segundo os estrategistas, a campanha procurou disputar com Flávio Bolsonaro a ideia de mudança. Enquanto o senador se apresentava como alternativa a um presidente com décadas de trajetória política, a equipe de Lula buscou associar o projeto do adversário aos riscos de perda de conquistas sociais.
Nesse contexto, a imagem de Milei foi incorporada à comunicação. “Vai cortar você, vai cortar muito do que temos como conquista”, explicou Rafael Marroquim ao resumir a mensagem que a campanha pretendia transmitir.
A estratégia tinha como foco principalmente os eleitores indecisos, estimados em cerca de 15% do eleitorado. A comparação com a Argentina buscava provocar dúvidas entre os votantes que ainda avaliavam em quem votar.
WhatsApp e mobilização nas ruas
Outro eixo da campanha foi o chamado Exército de Lula, rede organizada pelo WhatsApp que, segundo os dados apresentados pela agência, passou de 50 mil para 10 milhões de integrantes.
A estrutura reunia produção de conteúdo, monitoramento de conversas, respostas em tempo real e orientação para que apoiadores participassem de debates nas redes sociais. A equipe também buscou recuperar símbolos associados ao bolsonarismo, como a camisa amarela da seleção brasileira.
“Do WhatsApp, dizíamos quando levar a camisa para o Instagram, em quais conversas no X intervir ou quais vídeos deveriam ser publicados nos stories. E o mesmo valia para as mobilizações, para levar o digital às ruas”, afirmou Marroquim.
A mobilização presencial foi considerada fundamental pelos estrategistas. Em 13 de outubro, uma marcha estudantil em Brasília reuniu, segundo os organizadores, cerca de 60 mil pessoas. Na véspera do segundo turno, foram realizadas atividades em 59 cidades.
A campanha também promoveu a chamada Live da Virada, transmissão de 24 horas que acumulou 21,7 milhões de visualizações, de acordo com os números apresentados pela Nordx.
Abstenção caiu no segundo turno
A estratégia buscou mobilizar eleitores que não haviam comparecido ao primeiro turno e manter a disputa pelo voto dos indecisos até o último momento. A taxa de abstenção caiu de 21,08% para 19,2%, o menor índice em um segundo turno presidencial brasileiro desde 2006.
Segundo a análise apresentada pela agência, 71% dos aproximadamente 14 milhões de votos adicionais em relação ao primeiro turno foram destinados a Lula.
Os estrategistas também destacaram a necessidade de reconstruir a imagem do presidente para parte do eleitorado jovem, que conhecia Lula principalmente pelo exercício do cargo, mas não necessariamente por sua trajetória como metalúrgico, sindicalista e fundador do PT.
Para isso, foram produzidos conteúdos sobre a história pessoal do petista. Lula também passou a participar de vídeos mais espontâneos e a gravar selfies, formato ao qual inicialmente resistia. Segundo a equipe, os três primeiros vídeos dessa nova fase alcançaram 26 milhões de pessoas.
Ao comentar a experiência brasileira e suas possíveis relações com a política argentina, Marroquim destacou a capacidade histórica do peronismo de produzir surpresas eleitorais.
“Penso que não existe uma história sem fim, não existe história concluída”, afirmou o estrategista.
Para a Nordx, a campanha brasileira deixou quatro lições: a preparação começa antes do período eleitoral, a integração supera o personalismo, a comunicação digital precisa chegar às ruas e a perspectiva de futuro deve ocupar espaço central na disputa política.
📲 Clique aqui para fazer parte do novo canal da Metropole no WhatsApp.

